<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983</id><updated>2009-11-14T16:30:21.312-08:00</updated><title type='text'>LANTERNA MÁGICA - Iluminando as Idéias</title><subtitle type='html'>Pensamentos que martelam a escuridão, buscando espíritos que os aqueçam com generosidade</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>59</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-1705926860460193695</id><published>2009-10-03T16:59:00.000-07:00</published><updated>2009-10-03T17:05:24.094-07:00</updated><title type='text'>As Cartas de Todos Nós - 2</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;Paris, 3 de outubro de 1922&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;...Oh, pretendia sugerir a você que pedisse as&lt;/em&gt; Memórias de Yeats &lt;em&gt;para uma resenha. Acho que serão publicadas neste outono. Acredito que você as julgaria muito interessantes. Ele não é uma pessoa "simpática", ao que sei, mas é desses homens que refletem seu tempo. Homens assim têm um fascínio para mim. Para você não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria que vivêssemos mais perto um do outro. Gostaria de falar mais com você. Mas há tempo. Quando esta selva de circunstâncias clarear um pouco, ficaremos mais livres para desfrutar a companhia um do outro. Agora não é o momento. Fale-me o que puder sobre você. Nem mesmo você pode desejar sua felicidade mais do que eu. Não esqueça que os dragões são apenas guardiães de tesouros e que se luta contra eles pelo que eles guardam - e não por eles mesmos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Katherine Mansfield&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Katherine Mansfield... A única escritora ou, melhor dizendo, a “única escrita feminina” de quem Virginia Woolf teve inveja. A morte lhe ceifou cedo, aos 34 anos, de turbeculose. Era uma contista magistral. Uma artista concisa, simples e de prosa impecável. Além disso, existiram seu diário e as inúmeras cartas, provas emocionantes e sensíveis de tenacidade, como esta que enviou ao marido &lt;strong&gt;John Middleton Murry&lt;/strong&gt;, do retiro na França, onde passou seus últimos anos lutando contra a doença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Katherine, em seu estilo cristalino, era como a luz penetrando na água. O fenômeno da refração a fazia ser indireta sem ser ambígüa. Esta carta é uma das mais belas declarações de amor que conheço. Ela não utiliza essa palavra uma única vez, começa tratando de assuntos literários apenas para depois esculpir sentimentos em estado puro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um desvio para tornar mais nítido o que sentia. O despiste para realçar o que queria dizer. Como grande autora, Katherine sabia que, às vezes, nos faltam palavras ou que estas não são suficientes para representar algo. E que a melhor maneira de confirmar alguma coisa é agir como um raio luminoso batendo numa superfície líquida e plácida: um ligeiro desvio visando reconhecer melhor aquilo que já sabemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atalhos assim são capazes de iluminar qualquer ser ferido ou enterrado, amenizando dores e resgatando-o do lodo, mostrando-lhe que os ferimentos de outrora não permanecem necessariamente, reconduzindo-o à tona e à vida plena. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-1705926860460193695?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/1705926860460193695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=1705926860460193695' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/1705926860460193695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/1705926860460193695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/10/as-cartas-de-todos-nos-2.html' title='As Cartas de Todos Nós - 2'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-2789173474675119014</id><published>2009-10-03T16:50:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T09:22:29.421-07:00</updated><title type='text'>As Cartas de Todos Nós - 1</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Berna, 02 de janeiro de 1947&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Querida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e de outras pessoas. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou a falta de caráter, um mês antes de irmos ao Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta, eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo o interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco a minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(...) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tua, &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Clarice&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um trecho de outra carta da autora Clarice Lispector, escrita também no ano de 1947, sobre sua inadaptação à vida na Europa, longe da família e dos amigos, acompanhando os passos do marido diplomata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o Dr. Victor Frankenstein concebeu sua criatura, que seria o epítemo do ser humano perfeito, o fez através da aglutinação de corpos e membros de vários outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao juntar pedaços alheios para criar um indivíduo acabou gerando uma monstruosidade, não o ideal sonhado. A criatura era muitos e não era ninguém, funcionava como a resultante do melhor braço de A, o mais saudável tronco de B, as pernas fortes de C, mas nunca era "ele". A tentativa de construir um modelo sem defeitos conduziu à aberração. Ato falho, o corpo de retalhos foi arrematado por um cérebro doentio, vindo de um psicopata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mitos ou criações sempre parecem antever verdades antes da ciência. Ao nos espelharmos em ideais, ao negarmos os nossos grandes ou pequenos defeitos, adoecemos, nos tornamos uma monstruosidade, um pastiche de nós mesmos. Mas, como a Criatura apesar de tudo pareceu superar suas cicatrizes e costuras, mostrando laivos de humanidade, fica a esperança de que nada é irremediável, apesar das aparências e circunstâncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice, numa carta, começou a construir esta ponte há 60 anos. Ainda é seguro atravessá-la. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-2789173474675119014?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/2789173474675119014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=2789173474675119014' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2789173474675119014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2789173474675119014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/10/as-cartas-de-todos-nos-1.html' title='As Cartas de Todos Nós - 1'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-3104203267960096748</id><published>2009-09-15T13:19:00.000-07:00</published><updated>2009-09-16T10:05:36.065-07:00</updated><title type='text'>A Casa dos Tatuís (Infantil)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Segunda Aventura de Mina e Seus Amiguinhos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puxa! Nunca imaginei que fosse tão fácil fazer os chapéus de cone! – comentou Mina, impressionada com a engenhosidade dos pequenos tatuís que carregava na palma da mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três encabularam, ficando com um tom rosado na pele lustrosa e reluzente. Ao mesmo tempo, não conseguiam esconder a satisfação de impressionarem alguém como Mina. A cada minuto eles gostavam mais e mais da menina que iria ajudá-los a resolver os graves problemas da Tatuilândia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém sabe quem fez o primeiro chapéu de cone, Mina. Mas os avós explicam aos filhos, que contam aos netos e assim por diante. Desde sempre nosso reino é o maior fabricante de chatuís que existe!&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Chatuís&lt;/em&gt;? O que é isso? – espantou-se Mina.&lt;br /&gt;- É o nome que damos aos chapéus de cone – esclareceu Zefi. – Nossa família é fabricante de &lt;em&gt;chatuís&lt;/em&gt; há muitas gerações. Tuti e Dingo são considerados os dois melhores &lt;em&gt;chatuizeiros&lt;/em&gt; que surgiram nos últimos anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os caçulinhas se encolheram, mortos de vergonha com o elogio do irmão mais velho. Mina achou muito fofinho aquilo e fez carinho neles com a ponta dos dedos.&lt;br /&gt;Passava do meio-dia e o sol brilhava bastante forte. Mina tomava todo cuidado para proteger seus novos amiguinhos de uma insolação, pois viviam embaixo da terra e próximos do mar. Apesar dos &lt;em&gt;chatuís&lt;/em&gt; ajudarem, estavam habituados com muito frescor e pouca claridade ao redor. Assim levantava a ponta da sua camiseta por cima deles, como se fosse uma barraca de praia. E utilizava sua garrafinha de água para borrifá-los e diminuir o calor.&lt;br /&gt;Quando chegaram na casa onde morava com os pais e a avó, Mina colocou-os no murinho. Era uma rua tranquila e arborizada, sem muito movimento de carros, que permitia às crianças brincarem soltas e seguras. Na frente do terreno da casa existia um enorme gramado, com muitas árvores, algumas frondosas e outras cheias de deliciosos frutos. Um sistema de irrigação molhava as plantas naquele momento, acabando com sua sede e deixando o ar geladinho. Havia bastante sombra e soprava um ventinho bem gostoso. As folhas balançavam de modo suave e roçavam nos galhos fazendo um som engraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece barulhinho de sucrilhos na boca, né? – disse Mina, percebendo que os tatuís não tinham a menor idéia do que se tratava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela correu até a cozinha, abriu a caixa de cereais e apanhou três sucrilhos. Eles deviam estar famintos, embora não soubesse qual o horário das refeições na distante Tatuilândia. Mas era um alimento nutritivo e saudável, que faria bem aos novos amiguinhos. Não podiam passar tanto tempo sem comer alguma coisa. Pegou também alguns para ela, pois sua barriga já estava roncando.&lt;br /&gt;Zefi, Tuti e Dingo olharam curiosos para aquilo. Nunca tinham visto nada parecido antes. Para o tamanho deles, cada um valia uma refeição completa. Aos poucos, meio sem jeito, seguraram o sucrilho como podiam nas suas patinhas, lambendo de leve e achando o gostinho do açúcar delicioso. Era impressionante o modo que logo descobriram de agarrar facilmente aquela guloseima desconhecida.&lt;br /&gt;Ela observava encantada eles roendo e mordiscando os sucrilhos. Dingo, apesar de ser o menorzinho, devorava o seu mais rápido do que os outros. Mas todos soltavam várias exclamações de felicidade, aprovando o sabor daquela estranha e maravilhosa comidinha. Para surpresa de Mina, quando terminaram pediram um repeteco e mais três sucrilhos sumiram, engolidos pelos simpáticos tatuís.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O barulho é mesmo igualzinho ao das folhas! – confirmou o trio, achando muita graça naquilo. – Pena que não tenha sucrilhos na Tatuilândia!&lt;br /&gt;- Zefi... Eu estava pensando...&lt;br /&gt;- No que, Mina?&lt;br /&gt;- Os tatuís são mais parecidos com gente do que muitos imaginam... Vocês falam, sabem fazer coisas e gostam de sucrilhos... A diferença é que são bem mais inteligentes... Porque se preocupam em cuidar da natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mina ficou triste e uma lágrima começou a escorrer pelo seu rosto. Os tatuizinhos, de coração partido e aflitos, limparam os farelos da boca e começaram a subir pelo seu braço, tentando fazer cócegas para que ela sorrisse. Zefi, o mais velho, procurou animá-la com receio que Tuti e Dingo logo começassem a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós vamos dar um jeito nisso, Mina! Lembra do nosso plano de explicar aos adultos a necessidade de manter as praias, os rios e as florestas limpas? Foi uma idéia sua! Vai tudo dar certo! E nunca mais iremos nos separar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sorriso mágico iluminou o rosto da menina, um traço belo e luminoso que era somente dela e encantava aos que a conheciam. Ela começou a concordar com a cabeça, recordando o que haviam combinado uma hora antes. Enquanto o sol se escondia atrás de uma nuvem, Mina irradiava toda a claridade do mundo através dos olhos doces e agora tranquilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou fazer uma casinha para vocês aqui – afirmou Mina.&lt;br /&gt;- Como assim? – perguntaram cheios de surpresa.&lt;br /&gt;- Ora, tem muito espaço no nosso jardim! Naquele cantinho de terra perto das flores, basta deixar uma mangueira derramando água aos pouquinhos durante o dia. Coloco ainda uns tabletinhos de sal dentro do chuveirinho. Ela ficará molhada e salgada, como acontece na beirinha do mar. Será igualzinho ao lugar onde vivem e poderão passar mais tempo aqui, se enterrando nela quando sentirem vontade ou necessidade. O que acham? Querem ter uma linda casa de veraneio aqui, ao lado dos girassóis?&lt;br /&gt;- Seus pais não ficarão zangados?&lt;br /&gt;- Não! Eles são muito legais! E sabem que adoro bichinhos! Sempre permitem que eu traga para casa os que gosto. Além disso, se passarem mais tempo comigo, vamos poder começar a planejar hoje mesmo nossa campanha para conscientizar as pessoas da necessidade de conservarem as praias limpas. Concordam?&lt;br /&gt;- Sim! – aceitaram felizes, correndo sem parar pelo bracinho de Mina.&lt;br /&gt;- Vou colocar uma plaquinha ali dizendo: &lt;strong&gt;CASINHA DOS TATUÍS&lt;/strong&gt;! Que tal a gente comemorar com uma nova rodada de sucrilhos?&lt;br /&gt;- Viva! Três para cada um! – gritaram os tatuizinhos, agora os maiores fãs de sucrilhos, atirando os &lt;em&gt;chatuís&lt;/em&gt; para o alto.&lt;br /&gt;- Nossa! – riu Mina com prazer. – Melhor trazer logo a caixa...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3104203267960096748?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3104203267960096748/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3104203267960096748' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3104203267960096748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3104203267960096748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/09/casa-dos-tatuis-infantil.html' title='A Casa dos Tatuís (Infantil)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-3303847097368316415</id><published>2009-09-01T12:28:00.000-07:00</published><updated>2009-09-01T12:44:37.048-07:00</updated><title type='text'>Mina e os Tatuís (Infantil)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Quando Mina colocou os pés descalços na areia, correndo até à beira-mar, sabia que algo incrível iria acontecer naquela manhã. A beleza do sol, do céu e da praia a encantavam, fazendo-a sorrir mais do que nunca. Não havia outro lugar que desejasse estar, ainda mais em dias tão ensolarados assim. Chegava sempre com essa impressão de aventura, de novidade, ansiosa pelas surpresas mágicas que a natureza pudesse oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes de continuar nossa história vamos ter de explicar algumas coisas. Na verdade, ela não se chama Mina. Esse nome lhe foi dado pelas criaturinhas que vai encontrar daqui a pouco. Sua idade também é um mistério, melhor que você decida isso. Agora pode considerá-la uma linda menina, bem pequena e esperta. Quando tiver de ir embora será mais velha, sabendo atravessar a rua e voltar sozinha para casa. Cada vez de uma maneira diferente, de acordo com a situação do momento. Talvez por isso tenha chamado a atenção dos que vivem embaixo da terra, porque eles procuram apenas pessoas especiais, como ela e você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mina foi correndo para perto do mar. Deixou a água cobrir seus pés, sentindo todo aquele frescor delicioso das ondinhas quebradas. Agachou-se e começou a seguir na areia molhada aqueles furinhos que apareciam aos montes quando a maré recuava. Começou a cavar em volta deles e não demorou muito a se deparar com alguns pequenos tatuís, aqueles bichinhos pequeninos, adoráveis e cheios de patinhas que vivem enterrados, colocando-os com cuidado na palma da mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles não demonstraram ter medo dela. Começaram a passear pelos seus dedos, com um deles se aventurando pelo seu pulso. Ficou ainda mais contente quando percebeu que os três usavam um chapeuzinho de cone, sem saber que era a última moda na Tatuilândia, terra natal deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Que bom que veio nos visitar, Mina! – disse o maiorzinho, falando bem baixinho. – Adoramos receber visitas.&lt;br /&gt;-- Meu nome não é Mina... Vocês sabem falar? – espantou-se. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;-- Claro! – disse o tatuí do meio. – Tanto quanto vocês sabem. Mas nunca prestam atenção na gente. E seus nomes para nós são diferentes. O seu é Mina.&lt;br /&gt;-- O meu é Dingo! – disse o menorzinho, enquanto se equilibrava no dedo indicador dela. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;-- Eu sou o Tuti – apresentou-se o do meio, fazendo cócegas ao correr de um lado para outro da mãozinha em concha. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;-- E todos me chamam Zefi – contou o maiorzinho, demonstrando ser corajoso ao subir pelo braço da menina. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mina sorria encantanda para os novos amiguinhos. Achava graça do modo como eles se equilibravam sem dificuldade na sua pele, na ponta das suas unhas, passeando sem qualquer cerimônia. Porém o que a deixava mais intrigada era sua capacidade de falar, de entender e ser entendida por eles. Imaginando que de hoje em diante poderia conversar normalmente com qualquer animalzinho que encontrasse, ela tratou de aproximar deles o rosto, pois sua vozinha não era muito forte, sendo abafada pelo quebra-mar e a brisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vou visitá-los sempre – disse Mina, com o olhar maravilhado. – Ah, como eu queria um chapeuzinho de cone também!&lt;br /&gt;-- São chiques, né? – comentaram os três ao mesmo tempo, cheios de si. – A última moda na Tatuilândia. Eles são feitos com restos de conchas e coloridos com algas, usando bigode de peixe como elástico – explicaram. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-- Muito lindos! Quero ir no lugar onde moram nas próximas férias. Quem sabe consigo um para mim?&lt;br /&gt;-- Vamos adorar que nos visite – garantiu Zefi. – Mas está cada vez mais difícil arranjar um chapeuzinho de cone. A Tatuilândia já foi o melhor lugar do mundo para se viver. Tudo mudou de uns tempos para cá. Nem comida se consegue achar como antes.&lt;br /&gt;-- Por que? – preocupou-se Mina.&lt;br /&gt;-- Porque nem todos os seres humanos são do seu jeito, Mina. A maioria sequer repara em nós, não escuta nossos gritos. Eles sujam a praia e poluem as águas, tornam a vida impossível para todos os seres vivos. Se continuar assim a Tatuilândia e todos os demais reinos animais vão desaparecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mina ficou com os olhos úmidos. Mergulhou com cuidado seu braço na beirinha do mar, para refrescar um pouco os tatuís e lavá-los da areia, com medo que sua pele delicada ficasse arranhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Queremos ser visitados e ouvidos – explicou Zefi, enquanto sacudia as gotas de água do corpo. – Nós gostamos de gente e queremos também que gostem de nós. E nos tratem bem, sem sujar nossa casa - lamentou-se Tuti.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-- Temos chapéus de cone para todo mundo... – completou o miudinho Dingo, sem esconder sua tristeza. – Somente as crianças nos escutam ainda, gente grande não liga que a Tatuilândia esteja sumindo... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mina soprou um bafo quentinho para ajudar a secá-los e lhes dar um pouco de conforto. Estava comovida com tudo que escutara, com a preocupação agora substituindo o encantamento inicial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Vamos fazer assim, meus amiguinhos – gritou Mina, excitada com uma idéia. – Hoje vocês vão visitar a minha casa. Não fiquem com receio, depois os trago de volta à praia. Vou mostrá-los aos vizinhos, a todos os moradores daqui. Vão pode falar o que sentem e garanto que eles vão ouvir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Zefi, Tuti e Dingo pularam de alegria, rolando felizes pela palma da mão, se revirando por todos os lados, sem o mínimo receio. Adoravam Mina e confiavam em tudo que ela dizia. Com sua ajuda, haveria outra vez esperança para o futuro da Tatuilândia. E para todos os reinos animais desta e de outras praias, além dos reinos dos rios, florestas e montanhas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-- Hora de irmos então, tatuizinhos – disse Mina, ternamente. – E no caminho vocês vão me explicando como se faz um chapéu de cone desses. -- Muito fácil! – exclamou Dingo.&lt;br /&gt;-- Basta juntar um monte de caquinhos de concha e misturar com um pouco de cascalho... – continuou Tuti. -- Mas o truque mesmo para deixar no formato de cone é sempre... – começou a revelar Zefi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá se foram conversando pelo caminho cheios de animação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3303847097368316415?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3303847097368316415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3303847097368316415' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3303847097368316415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3303847097368316415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/09/mina-e-os-tatuis-infantil.html' title='Mina e os Tatuís (Infantil)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-123128132540381699</id><published>2009-08-26T18:54:00.000-07:00</published><updated>2009-08-29T06:38:25.784-07:00</updated><title type='text'>Entre Silêncios e Sussurros (Poesia)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Retorne aquele riso,&lt;br /&gt;Que anula a ausência,&lt;br /&gt;Ou ainda teu sorriso,&lt;br /&gt;Que apaga a carência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alma ressecada chora,&lt;br /&gt;Irriga e traga outra noite,&lt;br /&gt;Derrama-se até a aurora,&lt;br /&gt;Como o flagelo do açoite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que eu sonhei contigo,&lt;br /&gt;No despertar que nunca vem,&lt;br /&gt;Corpo tão sedento e arisco,&lt;br /&gt;Na oração sem fim ou amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarro as mãos numa prece,&lt;br /&gt;Abro os braços em convite,&lt;br /&gt;Arrisco solitário no palpite,&lt;br /&gt;De que nem tudo desvanece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há tanto esqueci qualquer amanhecer,&lt;br /&gt;Com sua claridade torpe e ilusória,&lt;br /&gt;Vale apenas quando eu pude conhecer,&lt;br /&gt;Aquela que escreve minha história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Páginas em branco adiante,&lt;br /&gt;Lençóis amassados na lembrança,&lt;br /&gt;Emoção ávida e palpitante,&lt;br /&gt;Matéria-prima daquela esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo ainda ajoelhar e jurar,&lt;br /&gt;Por sentimentos que você criou?&lt;br /&gt;Preciso nessa boca declarar,&lt;br /&gt;A atração que teu corpo batizou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejo todos os mesmos desejos,&lt;br /&gt;Que tua carne quer compartilhar,&lt;br /&gt;Apagar o fogo dos velhos anseios,&lt;br /&gt;Somente para outros poder atear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob velas, estrelas, luares e incensos,&lt;br /&gt;Manhã e anoitecer agora retornarão,&lt;br /&gt;Libertados por gemidos tão intensos,&lt;br /&gt;Verdadeiros guardiões dessa paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns acham que nada tenho de poeta,&lt;br /&gt;Que sou um pseudo em estrofes soltas,&lt;br /&gt;Mas se o coração deles não se completa,&lt;br /&gt;Não os acusarei pelas suas visões tolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia é a apoteose da criação,&lt;br /&gt;E reservá-la aos poucos autores,&lt;br /&gt;Capazes de rimar em arte dores,&lt;br /&gt;Seria conferir a posse da emoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre silêncios e sussurros,&lt;br /&gt;Quem ama assim emerge puro,&lt;br /&gt;Pois não existe alternativa,&lt;br /&gt;Nos versos ao renascer da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-123128132540381699?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/123128132540381699/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=123128132540381699' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/123128132540381699'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/123128132540381699'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/08/entre-silencios-e-sussurros-poesia.html' title='Entre Silêncios e Sussurros (Poesia)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-5613546238094928986</id><published>2009-08-22T13:25:00.000-07:00</published><updated>2009-08-26T11:29:37.523-07:00</updated><title type='text'>Rimas Cúmplices (Poesia)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nessa janela que se faz de espelho,&lt;br /&gt;Vejo teu rosto pleno e sorridente,&lt;br /&gt;Mergulho inteiro, vivo e contente,&lt;br /&gt;Pois no reflexo também me revelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se toda linha desenhada na natureza,&lt;br /&gt;Fosse uma rota para encontrar você,&lt;br /&gt;As seguiria, com disposição e certeza,&lt;br /&gt;Colocando meu coração a tua mercê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é como renunciar a mim,&lt;br /&gt;Mas o mágico complemento em ti,&lt;br /&gt;Ou esperar milagre nesse fim,&lt;br /&gt;Porém cantar o amor em sol, lá, si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você me ofereceu o começo,&lt;br /&gt;Um futuro rico em frutos,&lt;br /&gt;Te devolvo nosso recomeço,&lt;br /&gt;A vida eterna nessa terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Emudecidos e umedecidos,&lt;br /&gt;No ardor desta louca paixão,&lt;br /&gt;Fazendo do desejo o tecido,&lt;br /&gt;Que nos imuniza da solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero seu sexo, receba o meu,&lt;br /&gt;Misture sua pele então na minha,&lt;br /&gt;Ao redor, os corpos em revolta,&lt;br /&gt;Na busca onde cada um se aninha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mesmo que o tempo sempre pare,&lt;br /&gt;Cada segundo sendo um presente,&lt;br /&gt;Um dia enfim não haverá despedida,&lt;br /&gt;O olhar não será do outro ausente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontro e reencontro juntos num só,&lt;br /&gt;Qual a poesia que extrai fluida de mim,&lt;br /&gt;Sabendo que te doando jamais a perco,&lt;br /&gt;O meu verso voltando de ti em reverso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-5613546238094928986?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/5613546238094928986/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=5613546238094928986' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/5613546238094928986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/5613546238094928986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/08/improvisos-naturais-poesia.html' title='Rimas Cúmplices (Poesia)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-5054656516510502899</id><published>2009-01-29T02:54:00.000-08:00</published><updated>2009-01-29T04:22:38.252-08:00</updated><title type='text'>Cânticos do Desterro (Conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pendurados à beira do precipício.&lt;br /&gt;Apenas dois míseros palmos de uma reentrância de terra escura e endurecida, salpicada por raízes retorcidas, nos separavam do vazio. O suficiente para mal acomodar o traseiro e colocar o ego em dia com as pendências. Além disso, repetindo uma experiência que tivera no deserto, sobrava a oportunidade única de contemplar a beleza da natureza em estado bruto, a harmonia oculta daquela gigantesca lacuna do relevo. Nem vale a pena mencionar os detalhes que nos conduziram e deixaram na presente situação. Atualmente vivíamos a parte mais excitante da tola desventura, melhor nos concentrarmos nela. O tempo escoava rapidamente, no seu ritmo insensível, exigindo atenção redobrada na postura corporal contra a força invisível que parecia nos atrair ao fundo daquele poço de almas. Até mesmo porquê, à mercê do desenlace, o antes e o depois desapareceriam no buraco negro das memórias órfãs, de autores anônimos.&lt;br /&gt;Era desesperador contudo lançar o olhar na direção do abismo. Posso estar me contradizendo por obra da fraqueza e da vertigem. Flutuar num torrão ressequido, qual um minúsculo intruso na paisagem, restringia a perspectiva à lâmina de um pêndulo. A altura descomunal colocava em dúvida se estávamos mais próximos do céu ou do inferno. Havia nuvens sobre nós, retalhos suaves e plácidos como flocos de algodão. Sentia que podia tocá-las, que ficavam bem próximas das pontas dos dedos. Ao contrário do fundo sob nossos pés, cujas extremidades percebiam que o infinito residia ali, nos limites de um assento naturalmente desconfortável, bundas flácidas e esqueletos doloridos invadidos pela dormência.&lt;br /&gt;Quando se colocarem numa enrascada dessas ao menos saibam escolher sua companhia. Ninguém sabe quanto vai durar a agonia, nem se o final será feliz. Meu companheiro de infortúnio se chama Sparta. Nome estranho, sempre achei. Os cacos de memória que restavam não informavam se alguma vez ele explicara o motivo de lhe batizarem assim. Mas como já andava de saco cheio dele isso carecia de importância. Suas idéias de merda nos colocaram naquela ínfima ravina projetada sobre o nada.&lt;br /&gt;Andávamos tão dissociados que nossas conversas se tornaram apenas mentais. Se ele me ouvia, ou eu próprio ainda o escutava, sinceramente não posso afirmar. Jamais voltamos a nos encarar desde que caímos nessa armadilha. Algumas frutas na mochila e um resto de água numa garrafinha plástica tinham garantido nosso débil sustento nos últimos dois dias. Uma brisa suave e constante trazia refresco aos pensamentos confusos, dificultando assim o avanço da demência e renovando o ânimo. Não abrir a boca e falar bobagens era outra maneira de economizar as energias.&lt;br /&gt;Enquanto devorava a metade de uma maçã, com casca, semente e tudo, lembrei o quanto Sparta podia ser místico em relação às suas empreitadas. &lt;em&gt;Companheiro&lt;/em&gt;, havia me dito há meses, &lt;em&gt;existe uma maneira de provar a existência de Deus&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Tive um velho professor de História que costumava comentar que para todo louco com uma idéia mirabolante existiam outros tantos dispostos a segui-lo. Sparta conseguiu apenas um. Entretanto bastou-lhe para desenvolver sua idéia de olhar a face do Criador. Aliás, quem dera fosse tão simples, pois a rigor seu plano apresentava matizes variadas e contrastes originais.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não ergueremos uma torre atingindo o firmamento, como em Babel. Tal tarefa seria sobrehumana. Desceremos às profundezas. Para baixo todo santo ajuda. Se encontrarmos o Diabo, em contrapartida saberemos que Deus também existe.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Agora devem mais ou menos ter entendido como chegamos aqui. Após uma série de pesquisas complicadas, rastreando volumes senis, grossos e empoeirados nos corredores das bibliotecas, Sparta concluiu que as portas da morada infernal jaziam escondidas no fundo inatingível daquela vertente. Estávamos exilados no meio do desconhecido, no coração de uma selva sem nome, afastados de qualquer contato, porque o sigilo seria um componente fundamental ao sucesso da jornada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seu babaca&lt;/strong&gt;, xinguei-lhe com toda força do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não suportaríamos encarar a luz divina, amigo. Ela nos cegaria em todo seu esplendor&lt;/em&gt;, ponderou. &lt;em&gt;Precisa avaliar nossa jornada como um ato de contrição: o fogo demoníaco não consumiria nossos espíritos, blindados pela força pura da fé.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;As divagações pretensiosas de Sparta momento algum afastavam a realidade crítica ao redor. Não tínhamos mais o material de escalada. Corrigindo: de descida. Os poucos metros acima que nos separavam de terreno plano e seguro tornaram-se então inatingíveis. A outra opção, a garganta abaixo, sequer exibia o que guardava. Não passava de um negrume longínquo, inacessível ao alcance dos olhos.&lt;br /&gt;Me intrigava a possibilidade de que Sparta não tivesse a menor noção do beco sem saída que nos enfiáramos. Que suas constantes reflexões continuassem vagando entre delírios messiânicos, acalentados por desconexos ideais superiores. Sua cruzada fora detida no primeiro obstáculo, o fracasso das intenções se mostrava indiscutível ante às circunstâncias. Apesar disso, na sua total confusão íntima talvez interpretasse tudo como um recompensa celestial ou um castigo demoníaco. Deus estaria nos conferindo a chance de avaliarmos nossa pequenez ou o Diabo demonstrando o quanto as aparências são traiçoeiras? Ou seria o inverso? Gelava meu sangue imaginar que o líder da empreitada decidisse as lições aprendidas de acordo com um espírito otimista ou pessimista, rebelde ou conformado.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Percebe o problema, seu cretino? Notou que ficamos encurralados, aprisionados enfim numa rocha minúscula, incomunicáveis e segregados, sem avanço ou retrocesso, aguardando o final da contagem regressiva? A cavalaria não virá nos salvar no último segundo, Sparta.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Sua fé se revela extremamente decepcionante, camarada. Não enxergaria o Santo Graal mesmo que o encontrasse. Deseja segurança e garantia de êxito em questões que trafegam além destes valores terrenos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Minha fé é tudo que me resta. Mas ela não impede que avalie as coisas como são. Fui reduzido a mero adereço dessa encosta. A expressão e a estima, a liberdade de ir e vir, me foram confiscadas. Sou o único responsável. Agi sem pensar, decidi por impulso e arrogância. Sequer disponho do consolo de descobrir se o veredicto veio de Deus ou do Diabo.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A cada segundo, a concentração exigida para firmar o corpo no assento incômodo redobrava de intensidade. Porém haviam poucas reservas vitais a recorrer. As pernas pairavam largadas e mortas sobre aquele despenhadeiro inclemente, dominadas por uma letargia absoluta, comprometidas pela circulação deficiente do sangue. As palmas das mãos, esfoladas e em carne viva, pouco auxílio podiam oferecer, procurando apoio em qualquer abertura. Anestesiadas pela dor e indefesas na ausência de esperança, teimavam em escorregar na superfície sebosa do terreno nauseabundo, atraídas pelo vácuo assombroso do abismo. A sacola não oferecia mais sustento, com exceção de um derradeiro gole de água. E as nuvens outrora alvas cederam sua pureza ao avanço viril da cor da fuligem.&lt;br /&gt;Não saberia mais como rezar, rogar auxílio ou implorar piedade. Sparta acusara minhas crenças de serem frágeis e estava coberto de razão. O blefe de toda a existência ficava exposto perante nuvens negras, folhagens rasteiras e a bocarra que velava as portas da morada demoníaca. O suplício minara toda convicção filosófica ou espiritual, desnudando meu temperamento insosso, de convicções nulas. Entre a cruz e o tridente correria ligeiro para aquele que primeiro acenasse com a tênue promessa de salvação. A convulsão do choro se camuflava na revolta muda do desenlace medíocre, sem pompa ou circunstância, clarins ou trombetas.&lt;br /&gt;O grito desesperado que soltei da garganta jamais derrubaria as muralhas de Jericó ou até os arbustos próximos. No entanto serviu para esfumaçar Sparta, despachá-lo em definitivo. Uma consciência torpe era algo inútil próximo ao fim. Fosse por um companheiro imaginário ou um alter-ego recalcitrante, o indício inconstestável de que a origem de minhas atribulações se incubava no meu interior caótico configurava-se insuportável. Ele alcançara a serenidade sem merecimento, descansava em paz noutra dimensão, provavelmente abrindo caminho ao dono que acabara de lhe conceder alforria. Se a morada era infernal ou paradisíaca... Sim, estou me contradizendo novamente.&lt;br /&gt;A aragem agradável ganhara velocidade e anunciava tempestade. O frescor mais escaldante que experimentei até hoje. O sibilar agudo do vento passando entre as ramas e as folhagens densas da montanha representavam uma estranha cacofonia. A percepção comprometida tentava teimosamente descortinar algum sentido naquilo. Pareciam trechos musicais desencontrados, melodias pouco adocicadas e amorfas introduzindo uma coleção de cânticos de desterro. Um hino ao pobre indivíduo solitário, isolado do mundo naquela poltrona empedernida ridícula, prestes a ejetá-lo sem pára-quedas num vôo previamente condenado.&lt;br /&gt;O frenesi do corpo em colapso embotava os sentidos. Inúmeros sonhos antigos de grandeza pareciam aptos a ensaiar sua patética despedida, conferindo um sabor ácido ao passado. Amores perdidos, sentimentos abortados, ideais melancólicos, promessas desfeitas, estratagemas engenhosos, transas consumadas, trepadas frustrantes, amizades ocasionais, talentos desperdiçados, emoções outonais. No descompasso generalizado, as notas do réquiem, os sons do exílio, o concerto de galhos e caules adquiriam formas sonoras estranhas, nuances excêntricas. O olhar procurava seguidamente um ponto de descanso, iludido pelos vórtices que invadiam as pupilas cansadas. As imagens alucinatórias eram da magnificência de um turbulento circo romano, onde a derrota seguia-se ao escárnio por parte da multidão ávida. Os polegares de patrícios e plebeus viravam-se para baixo, negando anistia ou compaixão. A cavalaria não apareceria mesmo no instante crucial.&lt;br /&gt;Quando meu corpo morimbundo começou a deslizar rumo ao abismo uma última gargalhada foi o adeus que reservei à vida. Ou a saudação que destinei à morte? De qualquer modo, um misto de sarcasmo e desencanto. Nem Deus, nem Diabo. Muito menos, o dilema entre a cruz ou o tridente. Para baixo todo santo inegavelmente ajudava, conforme o finado Sparta. Minhas vãs esperanças miravam a coroa de louros do Imperador, o cetro reluzente em seu poder. A linha tênue entre a vida e a morte repousava nas suas mãos sagradas, no seu perfil divino, não importando mais o certo e o errado, a ilusão e a realidade. Não seria doravante cristão mas um súdito leal. Ao invés de um indivíduo desgarrado, um cidadão do império, temente ao panteão dos deuses pagãos, incensados nas oferendas.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ave César, os que vão morrer te saúdam... &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-5054656516510502899?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/5054656516510502899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=5054656516510502899' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/5054656516510502899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/5054656516510502899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/01/canticos-do-desterro-conto.html' title='Cânticos do Desterro (Conto)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-7654415516413214412</id><published>2009-01-28T11:00:00.000-08:00</published><updated>2009-08-11T11:39:07.313-07:00</updated><title type='text'>Crepúsculo dos Deuses</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Remexer velhas notícias muitas vezes causa efeito retardado. O que passou em branco na época apenas talvez não tenha encontrado o momento certo para fustigar nossa percepção ou então acionar os mecanismos da reflexão. O texto a seguir foi publicado no &lt;strong&gt;UOL&lt;/strong&gt;, no final de agosto de 2008:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Fatia de bolo de casamento de Diana e Charles é leiloada:&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Uma grande fatia de um bolo preparado para celebrar o casamento de Lady Diana Spencer com o Príncipe Charles foi vendida por 1.000 libras (cerca de R$ 2.980), em um leilão no Reino Unido.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A porção tem a forma de um quadrado com 23 centímetros e havia sido dada a Moyra Smith, uma faxineira da residência real de Clarence House, em Londres, por um chef da família real, em 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fatia foi comprada por um colecionador privado do Reino Unido que deseja permanecer anônimo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fatias de bolo, fatias da vida... Mesmo transcorridos 28 anos.&lt;br /&gt;Acho a história de Diana Spencer de uma fatalidade absoluta. Faço questão de citar-lhe sem o &lt;em&gt;Lady&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;Princesa&lt;/em&gt;. E de devolver-lhe o sereno nome de solteira. Charles é o maior exemplo de &lt;em&gt;príncipe desencantado&lt;/em&gt; que conheço, o único sapo que beijado se transformou em coisa pior e mais feia.&lt;br /&gt;Deve haver algo de Jocasta ou Electra nisso tudo. Ora parecia que ela era sua mãe, ora ele posava de seu pai. Encará-los como um casal sempre esteve fora de cogitação. Mas não temos em nossos escribas atuais Sófocles ou Eurípedes. Resta ler sobre o &lt;em&gt;imbroglio&lt;/em&gt; em revistas de diversas nacionalidades, nas “Caras” de todos os cantos. O que na Antiguidade Clássica era &lt;strong&gt;tragédia&lt;/strong&gt;, na época contemporânea vira &lt;strong&gt;escândalo&lt;/strong&gt;. Devoramos as dores alheias assim como consumimos doces em recepções. Ainda existe quem pense que nada foi perdido no caminho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lembro de ambos acenando na sacada do Palácio de Buckingham. A multidão em delírio acenando de longe (“&lt;em&gt;Não me convidaram/Pra esta festa pobre&lt;/em&gt;”) e testemunhando a materialização do moderno conto de fadas. Contudo não nos restou nem Branca de Neve, nem Cinderela. Não temos mais também os Irmãos Grimm ou Charles Perrault. O que restava então para Diana? Naquele dia ela ainda dispunha de suas expectativas e de seus devaneios.&lt;br /&gt;Aos poucos, cena após cena, ato sucedendo ato, ela tornou-se o personagem central desta tragédia anunciada. Vomitou tudo, menos a maçã envenenada que lhe ofereceram. Atirou longe suas esperanças, sem conseguir fazê-lo com o sapatinho de cristal que já lhe machucava os pés. A morte de Diana, ou seu assassinato como alegam alguns, não foi num túnel parisiense. Investigando aí nada se encontrará. Mas que tal recuar no tempo e seguir seus passos após os acenos aos londrinos amontoados, quando o balcão esvaziou e as portas do Palácio foram cerradas? Que preço imputamos a alguns para acalentar nossos sonhos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Relendo a nota inusitada, é impossível evitar a sensação que o ciclo se fechou. Que tudo isso, no seu absurdo, apenas aconteceu para que uma fatia do bolo da noiva, dada a uma faxineira palaciana, fosse leiloada anos depois, dentro da nossa escala atual de valores. Ela varria a sujeira da realeza, sabia com quem lidava, nunca colocaria na boca uma fruta podre camuflada em guloseima. Exigir o que da teia do destino? Que em pleno século 21 Édipo assassinasse seu pai para dormir com a mãe? Ou que Electra matasse a mãe e o amante para vingar seu pai?&lt;br /&gt;Jamais. &lt;em&gt;Tempos Modernos&lt;/em&gt;. Restou apenas uma fatia ressequida da festa e um bater de martelo de leiloeiro. Uma princesa morta sem pavana e um príncipe vivo com cara de anfíbio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como é difícil não vomitar... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-7654415516413214412?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/7654415516413214412/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=7654415516413214412' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/7654415516413214412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/7654415516413214412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/01/crepusculo-dos-deuses.html' title='Crepúsculo dos Deuses'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-3042853263496354122</id><published>2009-01-27T21:45:00.000-08:00</published><updated>2009-08-12T16:55:48.834-07:00</updated><title type='text'>Ensaio Sobre a Cegueira</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;A justiça é cega.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O pior cego é aquele que não quer ver.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Em terra de cego quem tem um olho é rei.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) estruturou seu pensamento sobre as relações de poder. Elas estariam parcialmente distribuídas na história da sexualidade, da loucura e das formas jurídicas. Assim, involuntariamente, um ser humano adoentado creditaria ao médico o poder de curá-lo. Num sentido correlato, o saber científico acumulado deste, o dotaria então de uma força arbitrada convencionalmente de decidir a necessidade de uma internação, por exemplo, ou diagnosticar um desequilíbrio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esse esquema do &lt;em&gt;panopticum&lt;/em&gt;, da sociedade que se vigia e pune através de múltiplos olhares (a ciência, a jurisdicão, a religião, os costumes), ao menos se equilibra quando os profissionais agem com consciência e ética, embora jamais anule a equação saber-poder. Quanto pior a atitude naquilo que lhe cabe, mais vicioso será o indivíduo que emergirá, podendo o mesmo processo estar embutido no sistema educacional, de forma geral. Assim, as diversas relações escapam ao controle, ganhando vida própria, não importa quão envenenadas estejam as conjunturas ou se fechemos comodamente os olhos às situações. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se pudéssemos mesmo “ensaiar” a cegueira, além de dissertar sobre ela, com a mesma facilidade com que decoramos ditados populares... Teríamos um mundo em permanente escuridão, onde nada reluziria e portanto não haveria ouro. Reconstruiríamos os conceitos de &lt;strong&gt;feio&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;belo&lt;/strong&gt;, talvez até fossem banidos em definitivo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Redimensionaríamos as distâncias, as proporções, as formas e as perspectivas. Com o desenvolvimento dos outros quatro sentidos para compensar a perda da visão, o tato agarraria o abstrato, o olfato cheiraria os sentimentos, o paladar saborearia a fraternidade, a audição perceberia as batidas dos outros corações. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seria naturalmente &lt;em&gt;Um Ensaio Sobre Ser Humano&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3042853263496354122?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3042853263496354122/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3042853263496354122' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3042853263496354122'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3042853263496354122'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/01/ensaio-sobre-cegueira.html' title='Ensaio Sobre a Cegueira'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-2540844033097063844</id><published>2009-01-27T21:18:00.000-08:00</published><updated>2009-01-27T21:22:23.372-08:00</updated><title type='text'>Cárcere Sem Grades</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As crianças, intuitivamente, detectam o &lt;em&gt;xis&lt;/em&gt; de quase toda questão.&lt;br /&gt;Vamos acompanhar uma delas, dentre tantas. Encantada com o mundo ao redor, cada dia uma nova descoberta ou, ainda melhor, um novo enigma. Quando vê um temporal, gruda o rosto na vidraça da janela, especulando se o aguaceiro que desaba não se constitui de longos cordões de prata ligados ao céu. Puxando um deles, talvez faça descer um belo anjo ou um bebê rosado, quem sabe.&lt;br /&gt;Na frente do espelho encontra-se com a própria imagem. Toca nela apenas para reparar que ela faz o mesmo com ele. Não há muito calor humano, percebe, e o motivo não reside apenas no vidro ser gelado. Interagem mas o fato daquela réplica agir como &lt;em&gt;macaco de imitação&lt;/em&gt; logo perde todo encanto. Porém um maior perdura. Afinal haverá um irmão gêmeo do outro lado, esperando ser libertado?&lt;br /&gt;Enfim, a televisão. Ainda desligada e não sabe como acioná-la. Ou deixaram o controle remoto muito no alto do móvel. Acordou cedo, os adultos ainda dormem. Na frente da tela escura recorda da dedução mágica: existem vários bonequinhos ali dentro, anõezinhos adoráveis. Hoje, enfim, talvez quebre esta vidraça, destrua este espelho, e os liberte para si, sem imaginar que também libertaria a si próprio.&lt;br /&gt;Olha resoluto a vidraça encharcada, o espelho seco e a tela escura, prestes a definir tudo. Entretanto, do nada, sua mãe passa por ele, diz que o ama, beija seu rosto, afaga seu cabelo e, num último gesto antes de se encaminhar à cozinha, liga o aparelho sedutor. Tudo se ilumina e nossa criança imediatamente se aprisiona, esquecendo os anões encarcerados na sua frente, o gêmeo congelado atrás de si, os anjos aguardando serem puxados lá fora.&lt;br /&gt;Qual será o próximo programa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-2540844033097063844?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/2540844033097063844/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=2540844033097063844' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2540844033097063844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2540844033097063844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2009/01/carcere-sem-grades.html' title='Cárcere Sem Grades'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-1932065194257715875</id><published>2008-12-28T16:48:00.000-08:00</published><updated>2009-01-04T01:43:34.566-08:00</updated><title type='text'>Nossos Risos (Poesia)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Não deveriam ser risos?&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O abraçar de duas almas,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma toada fascinante,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A calma de uma pousada,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um impulso aliciante.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fico procurando indícios,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os pedaços que sumiram,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Perseguindo os vestígios,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As alegrias que partiram.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por quantas enseadas mais,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quais caminhos enveredar,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Descobrir enfim nossa paz,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E reviver o prazer de amar.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seu rosto guarda respostas,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seu olhar, novas perguntas,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No sorriso encontro a ajuda,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A força de manter a procura.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Silêncio, dor, distância,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Imensidão e esperança,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O vento carrega o desejo,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A chuva refaz o desterro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Velas ternamente guardadas,&lt;br /&gt;Sophias apoiadas num abraço,&lt;br /&gt;Fotos de histórias adornadas,&lt;br /&gt;Cedinho luzindo ao mormaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Afinal, não devem ser risos?&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estendo minha mão,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Beijo a sua imagem,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tento daqui te tocar,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Delineio tal viagem.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O contato é sempre mágico,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como o céu beijando o mar,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lábios úmidos e tão cálidos,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eternizando o nosso gostar.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Entregues fechamos os olhos,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Abraçados detivemos o tempo,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A noite veio repleta de sonhos,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Achamos juntos o firmamento.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minha alma chora largada,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Teu coração procura o meu,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Qualquer trajeto é estrada,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;À benção que Deus nos deu.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Onde procuro, onde te chamo,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Te mostro o Sol, aponta a Lua,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Subindo no tapete de estrelas,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alcançamos juntos as alturas.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Se viver não são apenas sonhos,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Menos ainda, anseios desfeitos,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Além de casualidade ou destino,&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A escolha se descobre sorrindo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Logo serão apenas nossos risos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-1932065194257715875?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/1932065194257715875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=1932065194257715875' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/1932065194257715875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/1932065194257715875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/12/nossos-risos-poesia.html' title='Nossos Risos (Poesia)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-949615577170035455</id><published>2008-04-23T15:01:00.000-07:00</published><updated>2008-08-03T06:46:15.831-07:00</updated><title type='text'>Amor e Redenção (Conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Era uma vez... Essa é a história de 16 e 17.&lt;br /&gt;Nossos personagens não têm nome, pois vivem sob tratamento numa instituição especial, onde isso pouco importa. A doença que os aflige também não possui nome, apesar disso ter muita importância em lugares assim. Mas nenhum pesquisador ou cientista até hoje a batizou com aquele emaranhado hermético de termos em latim. Estão confusos sobre a moléstia, jamais viram um caso similar. Para sua grande surpresa, no mesmo dia surgiram, simultâneamente, dois pacientes apresentando aqueles estranhos e fenomenais sintomas. O último detalhe que se preocupariam portanto seria com seus respectivos nomes.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Infelizmente, constataremos adiante que os principais interessados não podem ajudar. São incapazes de dizer como se chamam. Chegaram aqui após uma série de paradas e peregrinações, percorrendo uma longa linha de estabelecimentos do gênero. Onde o caráter excepcional do seu problema passou despercebido, classificado muitíssimo aqüém de sua verdadeira extensão. Sem parentes ou amigos que insistissem junto às autoridades médicas, dependeram da eventualidade de um exame feito acidentalmente para surpreender os plantonistas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Assim, 16, um homem, e 17, uma mulher, apenas carregam num crachá o número de seus quartos adjacentes. O destino demorou décadas em reuni-los, mas enfim cumpriu seu papel. Viveram a maior parte do tempo afastados de tudo e de todos, encerrados em ambientes de solidão e penumbra. Ambos ainda são jovens, em torno dos 30 anos, e o mal que os acomete acompanha-os desde o nascimento. Segundo o boletim de entrada, trata-se de uma variação original do autismo, embora certas peculiaridades impeçam de classificá-los assim. Com a palavra, o diretor da clínica, cujos nomes omitiremos, sendo irrelevantes no curso dessa narrativa:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- O autismo é um distúrbio agudo no qual, desde a mais tenra infância, o indivíduo não consegue desenvolver relações sociais normais com as pessoas e o mundo ao redor, preferindo o silêncio e se comportando de modo repetitivo na sua alienação, através de certos atos e rituais. Sua causa continua um mistério. É uma patologia diferente do retardo mental, pois não existe uma lesão. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;strong&gt;E no que afinal os sintomas de 16 e 17 os impedem de serem considerados autistas?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Apesar da sintomática deles conter todas estas características existem outras que nunca lidamos... É complicado de explicar aos leigos... No ponto de partida da moléstia podemos considerá-los autistas típicos. À medida que pesquisamos seu córtex e o encéfalo somos obrigados a retroceder no conceito, pois descobrimos que, de algum modo, existe uma atividade subconsciente excêntrica, de metodologia &lt;em&gt;normal&lt;/em&gt;, auferida por modernos e sofisticados equipamentos de atividade cerebral.&lt;br /&gt;- &lt;strong&gt;Como assim? O que significa isso? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Que no seu subconsciente percebem a vida em volta, igual a qualquer um de nós. Raciocinam razoavelmente, desejam coisas materiais, tiram conclusões, têm vontades naturais. Apenas não conseguem a partir daí comunicá-las ou concretizá-las como eu e você. A limitação da doença é uma barreira que os torna prisioneiros do próprio corpo físico. Nossos esforços, até hoje infrutíferos, concorrem no sentido de procurar um modo de driblar ou saltar este obstáculo. Seja através da ministração de drogas químicas ou terapias de estimulação dos sentidos. Tudo é muito tênue e sutil, os resultados obtidos se revelaram nulos, sem qualquer avanço mínimo ou perspectiva de redenção... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Agora conhecem algo mais sobre 16 e 17. O que não significa tanto, pois ninguém sabe o que se passa no seu interior, quais as expectativas e os sonhos que regem o seu íntimo. A batalha entre seus anjos e demônios permanece oculta, soterrada sob forças inexplicáveis, nunca combatidas anteriormente. A equipe responsável pelo delicado tratamento, por razões próprias, sempre providenciou para que jamais se encontrassem ou dividissem uma sala de atendimento. Estavam instalados em quartos vizinhos todavia a divisão de horários tornava impossível um encontro ou simples cruzamento casual nos corredores. Aos olhares individuais, eles ignoravam a existência mútua. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Certo dia, entretanto, alguém cometeu um grave erro. Se foi o enfermeiro responsável por ele ou a ajudante encarregada dela, persiste ainda a discussão. O fato é que, numa manhã distante, eles foram sentados lado a lado na seção de fisioterapia motora. Recentemente,16 apresentava notáveis progressos na utilização das mãos e das pernas. Porém, sem controle algum das reações ou vestígio de vontade lógica, além do ritual obsessivo de apertar uma bolinha de espuma, deixá-la cair e em seguida juntá-la, somente para repetir o processo horas a fio. E se lhe tomassen o objeto quando estava no chão, cessava a atividade como sequer a houvesse iniciado. Sem esboçar as menores interjeições de desagrado ou expressões de súplica. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Embora bastante próximos naquele recinto, as reações de 16 e 17 eram de absoluta falta de interesse um pelo outro, numa total passividade ao ambiente. Conservando uma postura rígida ao extremo, desprovida de qualquer sinal de vivacidade, parecia que os camisolões hospitalares trajados os tornavam invisíveis. Quem os visse julgaria que dois belos manequins de vitrine haviam sido despachados noutro endereço, pois sua aparência atraente e asseada se configurava a rigor asséptica e neutra. Ele começou o seu habitual esquema de aperta, larga e apanha bolinha de espuma. Os olhos opacos e vidrados, mexidos de cima para baixo, e vice-e-versa, numa atitude mecânica, não despertavam qualquer reação nela, assim como não provocaria nele se os papéis ficassem invertidos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Num dado momento, em uma das quedas, a bolinha rolou mansamente na direção do pé direito de 17. Ele se inclinou automaticamente na sua direção para apanhá-la. Ao erguer o corpo de volta à posição estática que mantinha, roçou levemente na sua coxa e no seu braço. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;O que foi isso, esse tremor?&lt;/em&gt; – indagou o subconsciente dele. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Que arrepio estranho e gostoso!&lt;/em&gt; – constatou o subconsciente dela. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Quero fazer de novo... Tocar nela outra vez...&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Por que ele não repete aquele gesto?&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Não estava ao alcance do desejo dele ou da vontade dela, por maiores tais que fossem, retomar a maravilhosa experiência. Exceto se a bolinha realizasse por acaso o mesmo trajeto, obrigando-o a encostar-se nela, involuntariamente, quando se abaixasse para recolhê-la. Suas mentes agora fervilhavam com o inusitado calor captado pelo contato de seus corpos mas não havia caminho para expressar a sensação. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Após uma drástica reprimenda do comando do setor nos funcionários desatentos, 16 e 17 foram então prontamente reconduzidos aos seus quartos, recuperando assimo tempo perdido no equívoco matinal, com a imediata antecipação da terapia áudio-visual.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Quero ficar perto dela! &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Não me afastem dele!&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Nunca a vi antes! &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Desejo vê-lo sempre! &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A única ocorrência que os mantinha próximos naquele instante, apesar de isolados nos seus aposentos, além da doce lembrança daquela &lt;em&gt;impressão deliciosa&lt;/em&gt;, era um aparelho de televisão exibindo o mesmo vídeo. O diretor da clínica acreditava na estimulação sensorial indireta e na prescrição medicamentosa como fonte de uma reação neurológica que os libertasse da disfunção. O monitor exibia um filme obviamente romântico, em seu ponto culminante: ao crepúsculo, à beira de um lago, um casal, reclinado lado a lado, abraçava-se de forma intensa, a seguir se beijando apaixonadamente, fisionomias extasiadas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Deve ser isso que ele me causou! &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Aquele delicioso roçar nela... &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A música crescia no encerramento e podia ser escutada nos corredores, onde num canto reservado, o enfermeiro e a encarregada causadores do indesejável encontro de 16 e 17 discutiam acaloradamente. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Jamais me apoiou, querido. E nas horas de crise, invariavelmente, culpa a mim. Às quartas-feiras, o horário da manhã é sempre dela. Há um mês nós estabelecemos de comum acordo o cronograma. Você errou e nem comigo admite isso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Tudo bem, não nego... Mas se assumir o engano estou perto do olho da rua, Noelle. A melhor solução está em não mencionarmos uma divisão prévia. A desculpa da falha de comunicação na véspera livrará nossas caras. Não despedirão dois de uma mesma tacada. Existe uma carência de profissionais especializados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- O problema é outro, já concordei com a justificativa... Não há mais diálogo algum entre nós. Nem consideração. Falamos línguas diferentes. Se alguém precisasse pagar pelo engano, seu egoísmo me sacrificaria sem pestanejar... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Culpas ou incongruências deixadas à parte, o exame de atividade cerebral realizado depois do almoço em 16 e 17 resultou alarmante. Os níveis atingiram subitamente índices acima do normal, numa freqüência inédita nos anais médicos. A quantidade de calor medida indicava um processo de cozimento mental, na ausência de melhor classificação. Os organismos do casal também registraram um preocupante aumento de temperatura, obrigando a imersão em banheira gelada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;strong&gt;Qual a explicação, doutor? A probabilidade de ambos sofrerem juntos os mesmos revezes seria praticamente nula... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Respostas... Se as tivéssemos disponíveis como imagina a Psiquiatria Clínica viraria uma ciência exata. Talvez algo maior influencie a situação. Esse caso sempre me perturbou. Como se a humanidade saltasse um passo à frente na sua evolução.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;strong&gt;Sua resposta soa mais mística do que científica... Em que dois indivíduos tão limitados representariam um novo e revolucionário estágio no desenvolvimento humano? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Sua pergunta soa mais acadêmica do que jornalística. Uma manchete cheia de sensacionalismo seria mais adequada do que seu descrédito. E a exclusividade da história sempre lhe pertenceu. Conto que seja bem generoso conosco na matéria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;strong&gt;Fique tranqüilo. Vou saber aproveitá-la e serei grato a vocês... O que decidiram afinal?&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Vamos separar o estranho casal e encaminhá-los ainda hoje para instituições distantes. Não posso desconsiderar o fato concreto de que, na única oportunidade que estiveram próximos, desencadearam dentro de si uma reação poderosa. A primeira medida para entender o significado disso é mantê-los afastados, puxando-os aos níveis clínicos padrões. Desconhecemos aquilo com o que lidamos. As perspectivas podem ser anárquicas ou catástróficas. Ao entardecer já terão partido daqui e tudo se aquietará para as partes envolvidas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;strong&gt;O senhor não exagera? A resposta não é menos complexa? Além disso, abriu mão de realizar um estudo único na sua área? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Exagero é ficar encerrado dias num laboratório de testes sem retornar para casa. O meu casamento está desmoronando. Minha esposa e eu não nos falamos mais sequer nas poucas vezes que sentamos à mesa. Parece que temos uma mordaça na boca e no coração. Nos amamos e somos incapazes de externar esse afeto. Abro mão desse estudo único, como afirmou, mas não da única mulher que desejei viver. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A ordem fôra energicamente transmitida nos alto falantes: os pacientes 16 e 17 deveriam ser logo preparados para uma viagem que os levaria ao distanciamento eterno e seguro. Seguiriam em ambulâncias diferentes, às 18 horas, rumo ao seu próximo destino. Aguardariam na sala de espera especial da clínica, sentados cada qual frente uma mesa, um par de cubículos divididos por uma grade que possibilitava a visão mas não o contato físico. Os enfermeiros ainda providenciaram uma jarra e um copo feitos de metal, para evitar acidentes quando sentissem sede. Um par de canetas hidrocor e blocos de desenhar para passatempo eram de praxe, apesar de inúteis aos doentes daquela categoria. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O estado geral deles estabilizara graças a uma dose química cavalar que forçara a queda da temperatura e cujos fortes efeitos colaterais também reduziam a atividade acelerada do cérebro. Uma medida emergencial e perigosa, mas que viabilizava seu deslocamento, porque o diretor e a cúpula do estabelecimento não queriam cogitavam o risco de perdê-los enquanto responsáveis.&lt;br /&gt;No corredor, contudo, ao se cruzarem rumo à sala de espera, 16 e 17 tiveram uma reação deveras extraordinária. Arregalando os olhos em total desespero, pareceram se devorar e implorar pelo outro, grunhindo palavras que ninguém compreendera. Chegaram até a balançar os corpos trôpegos, como aspirassem se libertar, inutilmente. A própria catatonia provocada pela sedação e a inércia natural da doença minaram suas pretensões aparentes, embora fosse impensável aos internos considerar isso um desejo consciente. Eram incapazes de atos e iniciativas deste porte, um ponto indiscutível. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Quero ficar com você, querida...&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Sua presença me deixa viva! &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Será que você pensa igual? &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Você entende o que sinto? &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Tem idéia desse sentimento, 17? &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- &lt;em&gt;Eu te adoro, 16! &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Superando as adversidades do sonífero e da moléstia, 16 lembrou-se, na ânsia de declarar seus sentimentos para ela, da cena do filme romântico exibido mais cedo. Num gesto assombroso, que paralisou a todos que ali circulavam, demonstrou o sucesso da terapia motora diária. Apressado pela luz baixa do crepúsculo, que indicava a vinda da hora do adeus, agarrou o copo de metal e bateu-o fortemente na madeira da mesa, deformando-a. Encheu a depresão com a água da jarra e desenhou no dedo indicador direito, com a caneta pilot, dois olhos, um nariz e uma boca, encimados por um cabelo curto. Fez o mesmo na esquerda, com exceção do adorno de uma cabeleira feminina. Encarando 17 ternamente, inclinou um dedo pintado na direção do outro, encostando-os, fazendo a simulação do longo e ardoroso &lt;em&gt;beijo,&lt;/em&gt; &lt;em&gt;às margens do lago&lt;/em&gt;. O largo sorriso que preencheu sua face abatida e serena enfeitou também a dela, como reflexos no espelho ao entardecer. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Aqui vamos encerrando nossa história. Poderíamos ter contado a de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda ou Abelardo e Heloísa. No entanto, preferimos narrar a de 16 e 17, torcendo que tenham compartilhado deste prazer. Quanto aos nossos apaixonados, no cair daquela tarde, após a explosão da emoção e exaustão da mente, prosseguiram separadamente sua trajetória, afastados pela intolerância humana. E convictos na paz de seu universo interior que se reencontrariam inevitavelmente, fundindo-se num mundo inacessível aos que não sonham ou proibem sonhar, numa região cuja chave de acesso é o amor assumido e a redenção obtida.&lt;br /&gt;Há muito tempo eles vivem lá. Era uma vez...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-949615577170035455?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/949615577170035455/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=949615577170035455' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/949615577170035455'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/949615577170035455'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/04/amor-e-redeno-conto.html' title='Amor e Redenção (Conto)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-871426612747771731</id><published>2008-04-20T20:58:00.000-07:00</published><updated>2009-01-04T01:56:13.643-08:00</updated><title type='text'>O Bom Vizinho (Conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todas as manhãs, exatamente às seis horas, o velho Lars descia com o saco de lixo rumo à calçada. Era uma tarefa cansativa para aquele corpo surrado. Entretanto, segundo fontes confiáveis, nunca deixou de fazê-lo durante os últimos quinze anos. Apesar da idade avançada possuía uma saúde de ferro. Desconhecia gripes ou males súbitos. Ignorava a friagem, o calor excessivo ou mesmo a atmosfera úmida. Qualquer um que tivesse o sono mais leve, ou o hábito de madrugar, ouvia diariamente aquele arrastar monótono pelo corredor e seguindo pela escada abaixo. Com o passar do tempo alguns se indagavam como aquele ancião solitário podia produzir tantas sobras, acumular tantos restos. Não que se importassem muito em descobrir hábitos do inofensivo vizinho. Apenas uma curiosidade momentânea do espírito. Igual à solução de uma charada ou o arremate em um diagrama de palavras cruzadas. Talvez para saciar inutilidades ele tivesse vivido por tantos anos.&lt;br /&gt;Naquela manhã não houve sinal do pacato Lars arrastando seu fardo. Nem todos perceberam a ausência. Era domingo. A grande maioria aproveitava para se levantar bem tarde, quase na hora do almoço. Eu estava acordado porque mal conseguira pegar no sono. A noite em claro fizera-me agarrar a qualquer indício de vida ao meu redor. Sons de buzina, murmúrios distantes, discussão de amantes, lamúrias de bêbados, roedores famintos, bater de asas noturnas. As redondezas eram pródigas em oferecer ao anoitecer seu leque de variedades: movimento de trânsito, inferninhos, encontros, desencontros, bares, ratos e morcegos. O suficiente para que uma aventura terminasse em tragédia ou levasse os participantes para a cama mais próxima. Típica zona de caça, abatedouro de corpos ansiosos pelo prazer físico. Em locais assim, o sexo podia ser apenas uma isca, com o caçador levando a pior. O final da madrugada testemunhava gente enroscada terminando uma trepada num canto escuro. Ou cadáveres torcidos que jamais iriam transar novamente, aliviados das suas posses ao invés das roupas. Tudo assistido por uma fauna noturna inusitada. Bicho homem e animais nojentos de toda espécie. Um zoológico aberto em todas as direções. Cada predador lutando pela presa desejada.&lt;br /&gt;Lugar perfeito para a cabeça de porco onde me enfurnara. Devem ter ouvido falar de histórias inacreditáveis sobre as manias de ricos excêntricos. Garanto-lhes que às relativas aos pobres excêntricos são incomparavelmente mais bizarras. O proprietário da construção, que ocupava o quinto andar, vivia envolvido em práticas místicas e crenças esotéricas. Estas lhe trouxeram confusão de idéias e caos financeiro, pois empregava o que auferia dos aluguéis em figas, búzios, baralhos de tarô, incensos, velas, cristais, materiais de magia em geral e livros de ocultismo. Apresentava-se como um iniciado em doutrinas secretas, percebendo cruciais indícios divinos nos fatos corriqueiros do cotidiano. Pretendia interpretar fielmente sinais e nos perseguia inquirindo sobre aquilo que tínhamos sonhado na véspera. Outros residentes completavam o leque, cada qual com sua peculiaridade. Havia a soprano do terceiro andar, incapaz de partir um cálice com seus agudos, porém uma diva absoluta na destruição dos tímpanos alheios. No mesmo pavimento, um completo fanático por educação física procurava modelar o corpo incessantemente, maltratando o piso com suas piruetas. Acima, na unidade contígua ao do velhinho, um casal de homossexuais que ganhava a vida como drag-queens numa boate fajuta do bairro, berravam repetidamente que nunca mais aceitariam dividir o palco fazendo juntas o mesmo número. E assim por diante. O curioso é que todas essas figuras tornavam-se identificáveis pelo som que produziam, pelo vestígio sonoro ou barulho que transmitiam regularmente a despeito da distância, ultrapassando paredes, portas e andares.&lt;br /&gt;Não pareciam mesmo gente de verdade. Lembravam personagens de antigos e batidos programas humorísticos. Aqueles tipos clichês, tradicionais, que arrancam gargalhadas fáceis repetindo anedotas similares. Talvez não devesse ser tão rigoroso ao julgá-los, pois não sabia se me enxergavam igualmente. O nascer do sol vinha se tornando bastante contrangedor, um incômodo que tirava qualquer capacidade de bom raciocínio ou julgamento. Os bons vizinhos de cada dia não tinham culpa da dor que a aurora proporcionava. Seus ruídos, surrados ou originais, vinham assim me mantendo vivo, alimentavam de algum modo meu espírito.&lt;br /&gt;Existiam ainda tipos mais assustadores: aqueles sem particularidade alguma, desprovidos de loucura ou desequilíbrio. Não conseguia distinguir um do outro, só produziam silêncio e mesmice. Desfilavam suas fisionomias anêmicas e despojadas de vivacidade sob absoluta inexpressividade. Deviam ser gente boa num certo nível. Mas não para mim. Eram incapazes de aguçar meus sentidos. Se intercalavam aos quartos vazios em igual quantidade. No início da noite já estavam recolhidos nos seus, escondendo-se da própria sombra. Apagavam a luz, como já haviam desligado a si mesmos. O clique do interruptor valia como uma despedida surda, um estalido solitário. Felizmente, outros ali colaboravam para a minha vigília.&lt;br /&gt;Assim, aguardando o curso natural dos ruídos esperei a contribuição de Lars. Um minuto depois das seis, já sabia que ela não viria. O velhote tinha uma pontualidade britânica e assombrosa. Conservava uma disciplina espartana. Não se deixava ver a troco de nada, era reservado em excesso. Sumia a maior parte do dia fazendo sabe-se lá o que. O quarto permanecia em silêncio absoluto. Portanto saía de casa, embora ninguém o visse partir. À noite, quando vez ou outra se cruzava com ele no corredor ou no saguão, esboçava um sorriso simpático e dirigia algumas poucas palavras de cortesia. Muito comedido e tímido. Todavia confiável, afável. Seus gestos estudados denunciavam a tentativa de autocontrole acima de tudo. Um recurso de camuflagem. De resultado infrutífero. Transmitia uma mágoa íntima, um perceptível desconforto, sob a proteção de uma barreira invisível que repelia qualquer um além do estágio das amenidades. No mais, nada que chamasse atenção. Trajes simples, leveza no andar, uma absoluta falta de pressa no semblante. Uma criatura de porte médio e idade avançada, o que tornava seu esforço cotidiano de puxar a sacola de lixo pelo longo corredor e descê-la três lances até a portaria, algo digno de menção.&lt;br /&gt;Meu jeito era completamente diferente. Displicente, deixava o lixo se acumulando para poupar viagens. Amontoava a pia de latas usadas e garrafas descartáveis. A pequena lixeira jogada ao lado do fogareiro abarrotava-se de caixas de papelão, restos de alimentos e plásticos amarrotados. Pura preguiça. Minha energia se encontrava crítica ao final do dia. E de manhã a última coisa que me preocupava a cabeça seria a limpeza do ambiente. Assim, empurrava aquilo sempre com a barriga. Tocava como podia até o momento de tomar vergonha. Reservava a rigor os domingos para desempenhar a tarefa. Como dormira mal certamente adiaria essa obrigação. Talvez deixasse para amanhã. Ou depois. Ou no domingo seguinte. Entretanto, não se tratava realmente de uma prioridade. Quando fosse possível acabaria acontecendo e tudo então recomeçaria.&lt;br /&gt;A coisa estaria ainda muito pior se me alimentasse com regularidade. Porém meu relógio biológico andava todo desarranjado. Não por viver como um solteirão convicto ou um homem solitário. O cheiro e o gosto da comida vinham me deixando enjoado, indiferente. Sentia a boca pastosa, pegajosa, sem mencionar que trocava a noite pelo dia seguidamente. Meus dentes andavam sensíveis, a gengiva latejava e a penúria me impedia de procurar tratamento. Nas horas avançadas ficava alerta, sentia-me cheio de vitalidade, embora uma estranha compulsão de procurar algo se fizesse sempre presente. Assim, naturalmente, detectava os ruídos de qualquer categoria ao redor.&lt;br /&gt;As batidas na porta forçaram-me a levantar. Estava vestido igual na véspera. Não havia roupa a trocar mesmo. As roupas usadas, suadas e amassadas acumulavam-se em volta da cama, também ansiando por sua vez de receber minha atenção. Além do mais, deitara do jeito que chegara da rua. Não me passou pela cabeça que fosse estranho alguém chamar tão cedo. O fato dissolvia a monotonia.&lt;br /&gt;- Ah, que bom que não o acordei! Já está até vestido. Não sei se você percebeu. O velhinho não desceu com o lixo hoje. Será que adoeceu? Tadinho!&lt;br /&gt;Ela nunca cogitou que eu podia estar dormindo ou descansando com a intenção de espantar uma tremenda enxaqueca. Violar a vida alheia era a atitude mais normal do mundo. Sua gordura enchia os olhos. Balançava o corpanzil como uma sanfona. Não parava quieta. Ia da esquerda para a direita, voltava, deixava qualquer sujeito enjoado. Costumava ser precavida na sua gula. Ao menos, não filava comida alheia. Trazia consigo um volumoso pedaço de sanduíche, que felizmente nem pensou em oferecer. O bolso do roupão escondia o que parecia um grande pacote de biscoitos. Acabou de mastigar outro naco e recomeçou logo suas considerações.&lt;br /&gt;- Ele anda tão pálido. Na certa não se alimenta direito. Já ofereci duas ou três vezes de lhe fazer um lanche e sempre recusou. Um homem solitário, na idade dele, às vezes se atrapalha com as necessidades. Vira uma criança indefesa. Os parentes, normalmente, pouco ligam. Restam os bons vizinhos, os de coração.&lt;br /&gt;Entrou sem qualquer cerimônia. Abriu toda afoita o invólucro das bolachas já bem instalada na única cadeira livre. Devorou três sem respirar e só aí me estendeu o pacote. Considerava que o biscoito era o passaporte para me invadir sem exibir o mínimo constrangimento. Recusei a oferta com um gesto brusco e sentei numa cadeira onde repousavam jornais e revistas antigos. Se ela pedisse algo líquido para acompanhar a comilança perderia seu valiosíssimo tempo. A geladeira andava tão vazia quanto à embalagem dela ia se tornando.&lt;br /&gt;- Minha filha, por exemplo... A morena alta que despenca aqui de dois em dois meses. Sim, porque aquilo não é visita. É um acidente de percurso. Acha que ela se preocupa como eu vivo entre uma vinda e outra?&lt;br /&gt;- Sua filha parece ser uma boa moça, senhora. Atualmente é difícil dispor de uma brecha nos compromissos. Todos ajeitam as coisas como podem.&lt;br /&gt;- Não estou me queixando da vida, rapaz. Pelo menos alguém ainda me procura ou bate na minha porta. Ao contrário do que ocorre com o velho Lars. Vocês jovens acham isso bobagem, claro. Utilizam a solidão como parte do charme.&lt;br /&gt;Contribuiu para a urgência de uma faxina sacudindo os farelos da roupa e deixando-os ir ao chão. Nem se preocupou em recolher a sujeira antes ou depois. A quitinete era uma bagunça total e seria ridículo pretender protestar. Revirei os olhos para o teto, disparado a parte mais limpa do cômodo. Minha visão dorminhoca de raios-X esforçou-se por penetrar nas vigas e no concreto localizando Lars em seu pequeno mundo, sem sucesso. Ela aguçara minha curiosidade, porém a sonolência se aproximava rapidamente e a disposição estava comprometida. Não chegava a enxergar urgência alguma na novidade surpreendente. Aquele ancião tinha o direito e o dever de uma única vez evitar se repetir, mormente em tamanha banalidade.&lt;br /&gt;- Ora, é apenas um velhinho inofensivo. A gente se acostuma com eles. Fazem parte do cenário. Nas poucas oportunidades que esbarrei nele aqui no prédio o achei muito legal. Nunca deixou de sorrir. No início achei que era afetado. Mas na verdade revelava uma certa complacência. Como se entendesse a gente e os nossos problemas imediatamente. Resultado da experiência. Deve ter vivido e visto um bocado de coisa. A senhora age com humanidade ao demonstrar sua preocupação. Não creio ter acontecido nada demais. Encheu-se da rotina e decidiu jogá-la para o alto. Tem até esse dever, como todo mortal. Se pudesse faria como ele.&lt;br /&gt;A gorducha suspirou. Satisfeita por devorar a guloseima encarava a realidade cheia de expectativa e compreensão. Deixara de balançar o corpo, aquietara-se. Olhou-me docemente, buscando pelas palavras certas.&lt;br /&gt;- Vive aqui somente há dois anos, Zack. Eu estou ao lado deve ter uma década. Só perco para o senhorio e o velho Lars. Ele chegou aqui faz quinze anos. O doutor me contou a estranheza que sentiu ao vê-lo a primeira vez. De como uma nuvem de melancolia parecia cercá-lo. Tristeza nos gestos, na atitude, como alguém fadado a um destino ingrato. Pouquíssima bagagem, uns apetrechos muito dos esquisitos e mistério de sobra. Tipo calado, apesar de educado e cortês. Nunca se soube do passado dele. Onde cresceu ou viveu. Se foi casado ou teve filhos. Não recebe visitas jamais. Ninguém pergunta sobre ele ou o procura. Como se houvesse caído sobre nós, remetido de um lugar longínquo ou de uma época distante. Pena... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A descrição captara minha atenção. Ela falava com genuíno interesse e uma pontinha de paixão sutil. Ou vice-e-versa. Acima de tudo, aquela robusta e insaciável senhora mastigava também pormenores da vida alheia e conseguira abrir meu apetite. Imaginei rapidamente possíveis aspectos da biografia do velhote. Um ricaço arruinado que conservara a educação de berço e procurava escondê-la para não revelar sua trágica e definitiva derrocada... Um cirurgião habilidoso que vacilara fatalmente numa mesa de operação e acabara expulso da profissão, cujas finas luvas ocultando as suas mãos eram uma amarga reminiscência... Um criminoso, um antigo condenado da justiça que quitara sua longa pena e padecia agora do contato perdido com o mundo... Ora, o terreno era fértil às especulações. Estava diante de um perdigueiro de respeito, que me iniciara na arte de farejar as coisas dos outros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O que se pode fazer, dona?&lt;br /&gt;- Pelo que passou, nada. Hoje nos resta certificar se ele precisa de ajuda. Um comportamento de anos e anos não é interrompido sem um bom motivo. O silêncio ao amanhecer foi estarrecedor. Contava com aquele ruído e ele não veio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Menos mal, eu não era o único maníaco no prédio.&lt;br /&gt;- Sugere batermos na porta dele? Na cara e na coragem? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O máximo que pode acontecer, filho, é sermos escorraçados. Pelo menos saberemos que ele está vivo. Teremos cumprido nossa parte. Agido como vizinhos de verdade, em solidariedade. Daqueles que não se transformaram em números numa porta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Simpatizo com o velhote. Só acho delicado invadir sua privacidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Invasão é uma palavra um pouco forte, Zack. Não iremos forçar a entrada. Tentaremos estabelecer contato. Obter um sinal de vida dele. Checar se está bem ou precisa de auxílio. Ele não é nenhum bicho-papão. Compreenderá a boa intenção. Ficará lisonjeado, até mesmo aliviado, ao constatar que alguém pensa nele. Demonstrar preocupação e atenção é outra maneira de transmitir amor.&lt;br /&gt;Concordei logo com a cabeça. Não havia o que retrucar. A senhora Marino passava o dia se empanturrando de guloseimas. Todo aquele açúcar cristalizara em seu organismo induzindo uma viúva de meia-idade às boas ações. Ela era uma pessoa carente, desajeitada e sem desconfiômetro. Batia na porta nos horários impróprios, arquitetava missões de resgate a velhinhos solitários, zelava pela conservação do lugar nas reuniões de condomínio. Acumulara um vasto catálogo de informações sobre os moradores, fazendo sabe-se lá que uso prático de tanta baboseira e insignificância. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No corredor, tropeçamos de imediato no terceiro heróico morador do nosso andar, o jovem Ericsson. Vinha de uma óbvia noitada de farra, encharcado do aroma de perfume barato. Trôpego, aproveitou para apoiar-se em mim na tentativa de recompor-se. A fisionomia grave da senhora Marino fulminava-o com uma censura muda. Mas o rapaz era gente boa. Esperto e inofensivo. Trabalhava como técnico em um laboratório de análises químicas no Centro. Um tipo bastante observador, arguto, em função da profissão. Já o vira especular sobre indícios que passariam em branco à maioria. Sabia juntar peças e costurar fios soltos. Naquele ambiente sórdido, desprovido de charme, contribuía com uma nota de sofisticação através do raciocínio e da lógica. Já resolvera os mais prosaicos enigmas do cotidiano com uma clarividência capaz de tirar nosso senhorio de seu ponto de equilíbrio. Certa vez encontrara, sem se deslocar, a chave perdida do painel de força, reconstituindo apenas os passos do proprietário desde a hora do café da manhã. Vira seus dedos gordos lambuzados de margarina impregnados com uma espécie de farelo escuro. Ao saber que este detestava pão preto, concluiu ser aquilo na verdade limalha de ferro e que havia guardado por acidente a chave no pote de manteiga. Por essas e outras, antes que ela abrisse a boca para denunciar os malefícios da boêmia desregrada, calou-a com um comentário típico de sua percepção sobrenatural.&lt;br /&gt;- O saco de lixo do velhote não estava na calçada. Adoeceu? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- É o que nós pretendemos verificar, mocinho – retrucou friamente a dona. – Saiba que existem inúmeras maneiras de se adoecer. Uma vida pouco regrada, devassidão constante e tendências notívagas são fórmulas para comprometer a saúde e destruir o corpo. Muito me admira que desconheça que não só de badalações vive um homem.&lt;br /&gt;- Assino embaixo, senhora. Meus pais sempre diziam isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Pelo jeito tapou os ouvidos sempre que falavam.&lt;br /&gt;- Não! As orelhas estavam desimpedidas. A música é que tocava no volume máximo e não dava a menor chance. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não gosto de deboches, rapaz. Posso passar sem eles. O senhor continua com o mau hábito de tocar sua música bem alta, aliás. Nos horários mais impróprios. Dificulta que seus vizinhos descansem espalhando aqueles grunhidos típicos de roqueiros alcoolizados e drogados. Ninguém faz questão de compartilhar dos seus gostos duvidosos. Use um fone de ouvido ou toque seu som mais baixo.&lt;br /&gt;- Prometo. Se a madame garantir também que agora assistirá às suas fitinhas pornográficas sem fazer tanto estardalhaço. Minha sobrinha adolescente me visitou na semana passada e foi constrangedor. Os gemidos foram de ensurdecer. Ninguém se excita com tal sinfonia. Use uma mordaça ou escolha vídeos infantis.&lt;br /&gt;O cara pegou pesado. Fiquei surpreso com a aspereza. Ele trouxera à tona um fato verídico: a mulher costumava mesmo se divertir fazendo aquilo. Nos horários que lhe apetecesse, com freqüência e intensidade. Curioso como tudo hoje continuava se referindo aos sons peculiares: agora acrescentávamos as melodias estrondosas e os rugidos eróticos na lista. Qual seria então o meu, afinal? Ou me enquadraria na asséptica categoria dos seres silenciosos, livre de classificação? Ora, nada me tornava tão especial no pardieiro. Cabia aos demais identificar meu ruído.&lt;br /&gt;A senhora Marino encarou-o com uma expressão de raiva contida. Não pretendeu negar a verdade, pois sabia que não havia como escondê-la. Talvez incrementasse as suas fantasias sexuais que os vizinhos machos participassem do seu pequeno show. O que ocorria na verdade. Impossível não tomar conhecimento de tanta animação solitária. Duas vezes me masturbara acompanhando a sessão à distância. Ericsson certamente já entrara nessa também. Porém era uma particularidade da dona e ela pretendia que permanecesse assim. O silêncio prosseguiu constrangedor num amanhecer tomado de barulhos e seus significados. Fiquei recolhido, aguardando um som salvador.&lt;br /&gt;- Reunião matinal de condomínio? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O guru soara o gongo. Nosso senhorio tinha a notável capacidade de materializar-se num passe de mágica, como que vindo do nada. Esta qualidade sim constituía um real prodígio esotérico, ao contrário das baboseiras que manipulava ou pretendia controlar. Chegara trajando sua longa túnica branca de dormir. Dizia ser um paramento para iniciados em alta magia, um complemento de seu espírito liberto ao percorrer as esferas superiores do sono. Ele sesteava um bocado. O estrondo de seu ronco nas primeiras horas da noite invadia todos os cantos do pulgueiro. Sua trajetória pelo nirvana custava à sanidade dos que ansiavam por silêncio e paz. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era irônica a referência ao encontro de moradores. Não havia mais algum ali. Pagava-se barato por nada. Ou caro por tudo. Dependia da postura otimista ou pessimista de cada um. As paredes mulambentas viviam carecas e há muito não recebiam um tônico revigorante. A umidade nas estruturas solitárias exalava o cheiro do mofo e se casava feliz com a poeira dos corredores abandonados à própria sorte. A grana que entrava era totalmente destinada às práticas cretinas do proprietário e bancava sua folga de cochilar horas a fio. Corrigindo, para não melindrá-lo: a sua crescente percepção dos registros cósmicos e o desenvolvimento dos seus poderes latentes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Se existisse ainda tal tipo de coisa por aqui, senhor...&lt;br /&gt;- Kalhani, senhora Marino. Simplesmente Kalhani. Nem senhor, nem doutor. Apenas meu nome de humilde postulante na congregação do Crepúsculo Reluzente. A sagrada e milenar ordem dos Cavaleiros da Luminosidade Oriental. A seu serviço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tudo bem... Esse troço aí, que seja... Mas o prédio está um horror. Imundo dentro, caquético fora. Vai ver é a razão pela qual minha filha nem aparece mais. Trata-se de uma moça fina, bem casada, desacostumada da falta de limpeza. Além de habitado por tipos que ignoram a palavra respeito. Que ofendem sem cerimônia.&lt;br /&gt;- Ora, senhora – interrompeu Ericsson. – Pode ser que sua filha não a visite pela imundície da moradia. Ou pelo refinamento que a posse de um marido rico trouxe para a vida tediosa dela. No entanto, a minha sobrinha foi afugentada por outro tipo de sujeira. Da que sai da boca e da garganta de madames incontroláveis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Calma, calma – apaziguou Kalhani, enquanto os dois remetiam-se mutuamente para os quintos dos infernos. – Saudaram o sol apenas para serem agressivos um com o outro? Absorvam a luz, irmãos, e purifiquem suas intenções.&lt;br /&gt;- A questão não é a velocidade da luz, Kalhani – quebrei meu voto de silêncio, finalmente. – O problema é a velocidade do som, o modo como os ruídos fazem parte de nosso cotidiano. E o incômodo que sua ausência provoca.&lt;br /&gt;- Compreendo, Zack. A falta do velho Lars e seu arrastar monótono. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes de confirmar, ele me interrompeu com um gesto superior. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não se impressionem. Nada de adivinhações. Percebi tudo através da aura coletiva de vocês. Existe uma lamentável carga contínua de desequilíbrio no ar. Uma sistemática que busco aperfeiçoar em todos os momentos, acima das convenções.&lt;br /&gt;- Que cara de pau! – fulminou a gorducha, que parecia ainda maior quando estava enfurecida. – Então todo mundo agora é clarividente! Provavelmente fui a primeira pessoa a dar pelo fato. Depois, o que paira na atmosfera desse seu estabelecimento é o cheiro constante de bolor.&lt;br /&gt;- Por favor, senhora Marino – implorou Kalhani, pedindo clemência com ao mãos. – Vamos focar nossa energia naquilo que realmente importa. Suas queixas são mais apropriadas para as reuniões de condomínio. Estamos todos muito preocupados com o senhor Lars. Perdemos tempo discutindo enquanto ele pode precisar de ajuda. Estou com a chave mestra. Por que não me acompanham? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ninguém se opôs à sugestão do guru e a missão de salvamento de um velhinho indefeso começou após tantas discussões inúteis. O grupo avançou em algazarra, cada qual abordando o assunto que mais lhe interessava. Como nenhum dos heróis de araque abriu mão de suas preferências, todos acabaram resmungando às paredes. A senhora Marino e o jovem Ericsson acabaram por voltar à discussão de minutos antes. Kalhani entoou um mantra como forma de inspirar nossas melhores intenções. O barulho terminou atraindo alguns atrasados recalcitrantes. A passagem sob alarido do bloco dos bons samaritanos pelo terceiro andar adicionou ao bravo grupo Larissa, a soprano, hoje inteiramente afônica, segundo explicou por gestos e grunhidos. Quase de imediato, Norton, o mestre em modelagem física, apareceu capengando e reclamando com seu vozeirão que fora acordado à revelia. Suas explicações adicionais e confusas sobre “&lt;em&gt;seu estiramento agudo do&lt;/em&gt; &lt;em&gt;músculo adutor da coxa direita&lt;/em&gt;”, devem ter produzido eco suficiente para colocar à espera as esfuziantes She e Female, a dupla de travecas, no alto da escada do quarto andar. Não bastasse, apareceu ainda um dos silenciosos, típico espectro sem eira nem beira, nome ou sobrenome, seguindo-nos como um zumbi. O exemplo perfeito do autômato seguindo sinais vitais que ele próprio não possuía.&lt;br /&gt;- Não precisa também esta tropa toda... – iniciou a senhora Marino com o tom mais professoral possível. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Só faltava mesmo essa! – protestou She, assessorada por Female. – Estamos no &lt;em&gt;nosso &lt;/em&gt;andar e o velhinho é &lt;em&gt;nosso&lt;/em&gt; vizinho. Você veio lá de baixo se meter em assuntos fora da sua alçada, &lt;em&gt;querida&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A réplica indignada dela foi abafada pelos grunhidos inúteis de Larissa tentando explicar sua rouquidão. Norton, solidário, sem diminuir um mínimo o tom habitual, usava sua contusão como consolo e exemplo “&lt;em&gt;do que sofre um profissional dedicado na tentativa de atingir à perfeição&lt;/em&gt;”. Por outro lado, buscando serenar nossos humores, Kalhani recrudescia a intensidade do seu mantra. Ericsson, conformado, me olhou de relance sinalizando o zumbi, que assistia tudo com o olhar vidrado, perdido no meio à palidez do rosto. O contraponto ideal àquela agitação matinal desmedida.&lt;br /&gt;- Porra, colega... Eu passo a noite na gandaia mas você que parece ter se esbaldado a valer. Já vi que dormir cedo não faz tão bem assim como dizem! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Caímos no riso ajudando a aumentar a confusão. O sujeito limitou-se a concordar timidamente, balançando os ombros arriados de modo conformado, pouco ligando se aquilo era bom ou ruim, engraçado ou de mau gosto. Permaneceu apático, ao mesmo tempo que o barulho diminuía e a toada mística chegava ao fim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Acho que agora devemos tratar do que viemos fazer, amigos. Muito reconfortante saber que existe tamanha generosidade nesta pequena comunidade. Além do mais, acredito mesmo que o velho e cortês Lars precisa de ajuda. Fizemos algazarra para acordar um batalhão e nenhum sinal dele. Para quem sempre se levanta cedo, esta manhã dorme como uma pedra. Infelizmente, temo pelo pior. Vamos logo com isso. Nosso bom vizinho conta conosco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O grupo se aproximou da porta em completo silêncio, procurando demonstrar uma seriedade que não possuía. Havia uma preocupação comum que, no entanto, era incapaz de superar a insegurança e a expectativa. Eu havia dito no início que o sentimento dominante era de desconforto, a partir do qual a curiosidade surgia com toda sua morbidez. Estivesse bem ou mal, o destino do velhinho não mudaria a existência de ninguém, apenas exercitaria um sentido efêmero e ligeiro de compaixão, mesmo que todos simulassem sentir sua perda profundamente. Um bando de ratinhos procurava seu pedaço de queijo. Puta merda, pensei, me deixei arrastar na correnteza da banalidade. Engrossei o coro da emoção vazia. Somente o Zumbi apresentava coerência naquele exército perdido. Arrastava-se por instinto.&lt;br /&gt;Kalhani retirou a chave mestra do bolso interno da túnica. Antes de girá-la na fechadura, bateu de leve uma, duas, três vezes. Colou o ouvido à porta e aguardou alguns segundos. Nenhuma resposta ou sinal de movimento lá dentro. Repetiu o gesto colocando mais força e rapidez, chamando-o pelo nome. Nada. Escutávamos apenas nossa respiração, misturada com uma ou outra palavra sussurrada. A matilha agrupada fingia estudar o próximo passo, exibindo um bom senso ou conhecimento que não dispunha. Sob o signo inatacável da benevolência e do amor ao próximo, éramos um bando de cruzados esperando pelas decisões de um líder anacrônico.&lt;br /&gt;A senhora Marino aproveitou o impasse para roçar ao máximo o corpo musculoso e rijo de Norton. O jovem Ericsson fez igual com Larissa, aproveitando o pouco espaço do corredor e o ajuntamento. She e Female se agarraram contritas, acariciando-se mutuamente, exibindo em público o que normalmente reservavam para sua intimidade. O Zumbi vibrava o corpo a cada pancada inútil do senhorio na porta, parecendo prestes a se desintegrar. Era um camarada mesmo estranho. Não recordava tê-lo visto muitas vezes, se é que o vi alguma. Começava a detestar tudo aquilo, podia estar enfim dormindo após a noite em claro. Não adiantava qualquer arrependimento neste momento. Também tinha meu lado mórbido e estava curioso.&lt;br /&gt;Desistindo de chamar a atenção de quem não sabia ao certo morto ou vivo, Kalhani girou decidido a gazua na fechadura e nos descortinou os domínios pessoais do velho Lars. A turma entrou afoita, meio que tropeçando uns sobre os outros, cessando abruptamente a bolinação desenfreada, todos indóceis na intenção de descobrir o que ocorria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aposento nada apresentava de excepcional. As cortinas grossas, cerradas com precisão, filtravam praticamente toda a luz, reforçadas por um forro de plástico negro. Um lustre rachado e empoeirado, pendendo inclinado do teto por uma corrente retorcida, iluminava com limitações o minúsculo espaço. O ambiente era desagradável e soturno, nada condizente com a impressão simpática que o velhinho transmitia. O ar pesado indicava a necessidade rápida de renovação. Havia uma tênue camada de poeira no chão e fomos imprimindo involuntariamente nossas pegadas no assoalho. Parecíamos antigos exploradores tateando com cuidado em terreno desconhecido.&lt;br /&gt;As dimensões eram iguais ao do meu quarto, dois pavimentos abaixo. À esquerda, havia uma geladeira entreaberta, desligada e, segundo percebi, vazia. Na pequena pia em frente, restos do que pareciam ser montes de terra úmida ou argila. Vários sacos plásticos para retirar lixo, do tipo que todos se acostumaram a vê-lo carregar até a véspera, amontoavam-se largados ou amassados. Na metade do caminho para a cama, uma mesa riscada, colorida pelos restos da mesma argila, amparava bandejas de plástico, pequenas pás e instrumentos de metal diversos. Nunca vira aquele tipo de coisa, sequer tinha idéia de sua utilidade. No canto, à direita, mais sacolas, estas inteiramente abarrotadas, estufadas, fechadas com um nó duplo e cuidadoso, guardando sabe-se lá o que. Ao lado, estirado, repousava em meio aos lençóis rotos o velho Lars, exibindo o branco dos olhos, boca entreaberta exalando mau hálito, pele sem viço, amarelecida, cabelos desgrenhados e oleosos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Meu Deus, meu Deus – começou a soluçar a senhora Marino. – Chegamos tarde, o pobre homem está morto. Esperamos muito tempo para vir...&lt;br /&gt;Esquecendo a recente altercação do corredor, as &lt;em&gt;drags&lt;/em&gt; procuraram consolá-la, amparando-a lado a lado. Female retirou da pequena bolsa a tiracolo, da qual nunca se separava, um lenço rendado que ofereceu gentilmente a senhora Marino. O restante cercou o leito cautelosamente, procurando certificar-se da sorte de Lars.&lt;br /&gt;Kalhani reclinou-se sobre ele e procurou o pulso. Puxou um braço esquálido e cheio de feridas, enterrado na roupa de cama sebosa e embaralhada, tentando distinguir algum vestígio de atividade vital naquele organismo enfraquecido. A sensação, enquanto ele variava a posição do toque, era que qualquer pressão demasiada iria esfarelar o corpo depauperado dele. Parecia prestes a rachar, decompor-se em mil pedaços, um arremedo humano flagelado por vicissitudes que lhe arrasavam sem piedade. O cheiro de morte e doença o envolvia num abraço apertado, apaixonado.&lt;br /&gt;- A pulsação está bem fraca mas ainda vive! – anunciou exultante.&lt;br /&gt;Felizmente todos tiveram o bom senso de evitar palmas ou gritos de comemoração. Ficava óbvio que seu estado de saúde era gravíssimo. Mais do que inspirar cuidados ele talvez precisasse de um autêntico milagre para sobreviver. Uma série de tremores sacudia-lhe o corpo periodicamente, enquanto balbuciava palavras incompreensíveis. Uma espuma esbranquiçada brotava viscosa do canto dos lábios anêmicos, escorrendo vagarosamente pela face rachada, reforçando a sensação de abandono. As pernas se cruzavam lânguidas numa atitude defensiva, como que protegendo num reflexo desesperado os últimos sinais vitais ainda disponíveis. Sim, estava vivo, entretanto tudo seria uma questão de tempo. Ou mesmo sequer disso.&lt;br /&gt;- Temos de chamar o pronto-socorro – sentenciou Kalhani. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Que esperança! – replicou Ericsson. – Aqui, nesta parte da cidade? E logo num domingo? Até eles chegarem, isso se vierem, o velhinho já embatucou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Nós precisamos fazer alguma coisa por ele... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Vamos com isso, pessoal! – recuperou-se a senhora Marino. – Um de nós vai ligando para a emergência do hospital. Os outros ficam aqui, ajudando da forma que puderem. O importante é agirmos e não largarmos o velho de mão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O senhorio se prontificou a descer e fazer a chamada telefônica, disposto a exigir um urgente atendimento. Ericsson começou a fuçar em volta atentamente, soltando diversas interjeições de surpresa. Larissa providenciou um pano umedecido para refrescar a testa de Lars, enquanto as &lt;em&gt;drags&lt;/em&gt; se esmeravam em arrumar-lhe a cama, ajeitando o travesseiro sob sua cabeleira grisalha. Me aproximei de Norton e da senhora Marino que cochichavam. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Nunca pensei que ele vivesse nessas condições – murmurou ela. – Ele parecia tão distinto, organizado. O quarto é sujo, mal cuidado, não tem nada... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ora, ele pode estar na dureza – ponderou Norton. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Falta de dinheiro não serve como desculpa, querido - sentenciou, colocando o braço parrudo em torno dos seus ombros largos. - Nenhum de nós é abonado, porém sempre se procura fazer o melhor. Minha aposentadoria é uma piada, o que não impede que o lugar onde moro seja decente. Por estas e outras vivo me aborrecendo nas reuniões de condomínio. Um mínimo de arrumação e limpeza nunca foram artigos de luxo. Pelo visto sou a única que pensa assim aqui. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era engraçado escutá-la dizer tanto, e com tanta propriedade, após o exército de farelos que havia espalhado no meu quarto, uma hora antes. Evitei a temeridade de apontar a contradição entre teoria e prática. Porque ela observara certas incongruências acertadamente. A imagem que todos faziam de Lars era bem outra. Seu porte nobre e maneiras dignas, desabavam ante à visão do estado das coisas ali. O resultado evidente do desleixo não podia ser produto de um único dia de mal estar ou enfermidade. Tudo fora largado havia tempo, manifestando falta de esmero.&lt;br /&gt;Aliás, isso tornava o quadro ainda mais esquisito, alçando Lars como pivô de uma polêmica dominical. Se o velhinho descia sempre com seu lixo, numa rotina diária, meticulosa e inalterável, o que carregava dentro dos sacolões afinal? A poeira se acumulava por todos os cantos, misturada com a estranha terra avermelhada. A geladeira, conforme informava o atento Ericsson, também estava imunda, mas não com vestígios de comida ou mantimentos. Muito menos encontrara pratos, copos ou talheres nos armários abaixo da pia, com exceção dos vários suportes plásticos e apetrechos similares aos que repousavam sobre a mesa encardida. Em suma, nada indicava que se alimentasse, nem que fizesse uma faxina regular em seu cubículo. Contestando tais deduções óbvias, opunha-se o tradicional desfile matinal com o qual todos se habituaram desde que vieram morar no lugar. Ele parecera até hoje asseado, cuidadoso e metódico. No dia que provavelmente seria seu derradeiro neste mundo, a imagem desmoronava de forma trágica e definitiva.&lt;br /&gt;- Meu Deus... Fico imaginando se vou ter um fim igual. Um velho esquecido, sem ninguém, deixado no meio da sujeira, amparado por desconhecidos...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ericsson abandonara suas conjecturas, exprimindo um pensamento que acometera todos perante o panorama que assistíamos. Coloquei a mão sobre seu ombro procurando animá-lo. Talvez não passasse de um clima de ressaca, embora a própria senhora Marino, seu desafeto, se emocionasse com o tom condoído das suas palavras. Antes que ela pudesse consolá-lo, Larissa se aproximou ansiosa, puxando Norton pelo braço, disparando uma saraivada de grunhidos inteiramente absurdos.&lt;br /&gt;- Baixa o timbre, menina! – implorou o atleta esmagado pelo nível insuportável dos grasnados. – Te acalma, tenta explicar por gestos, sei lá, cacete... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ela respirou conformada e, lembrando que uma imagem vale mais do que mil palavras, desenrolou um papel grosso, encorpado, um pouco amarelado, antes sinalizando tê-lo encontrado largado ao lado da cama, enquanto se ajoelhara aplicando outra compressa molhada na fronte do velho. Ericsson de imediato despertou do seu torpor de misericórdia, revelando um brilho febril no olhar ao lançar-se sobre o curioso achado. Não foi o único enfeitiçado, pois todos ao redor estavam envolvidos no clima de mistério.&lt;br /&gt;Para mim aquilo pouco significava. Tratava-se de um mero desenho, um tipo de esboço, feito toscamente a lápis preto ou carvão. Não era extraordinário, mas não chegava a ser ruim. As linhas traçadas com certa firmeza e orientação revelavam um jovem rosto de mulher, de origem nitidamente européia. Um tipo de qualquer forma estranho e exótico, uma espécie de beleza antiga, perdida no tempo. Os olhos grandes e arredondados saltavam em magnetismo, dominando o nariz minúsculo, a boca delgada e bem definida, o queixo ovalado e delicado, emoldurados por um cabelo negro preso na altura da nuca. O único enfeite era um diadema cingindo-lhe o alto da testa estreita e um discreto colar de contas em torno do pescoço esbelto e elegante. Tudo exercia grande fascínio e sedução, apesar de parecer datado e fora de época.&lt;br /&gt;Agarrando o desenho enquanto o esticava totalmente sobre a mesa, Ericsson passou levemente o polegar e o indicador sobre o papel. Percorreu-o de canto a canto, sentindo sua textura, procurando eliminar alguns vincos, examinando tudo com a máxima atenção. Parava em determinados pontos realizando seguidos movimentos circulares, sorrindo maroto de satisfação sabe-se lá o porquê. De vez em quando erguia a mão, cheirando e verificando a ponta dos dedos. A esta altura, o poder hipnótico da figura e dos gestos ritmados dele capturara o grupo, exceto She e Female que prosseguiam remexendo na roupa de cama sem jamais encontrarem a disposição ideal. Até o Zumbi, que desde nossa chegada se mantivera à parte, guardando em reverência o leito à distância, aproximou-se e ganhou vida na presença da magnética imagem. As duas mulheres tentaram não dar o braço a torcer, escondendo infrutiferamente uma inveja íntima e profunda. Os homens tiveram a respiração alterada, escravizados pelo par de olhos elétricos e linhas sensuais que pulavam da figura, sublimando seu desejo como fosse possível. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ericsson, que jamais negligenciaria sua condição de detetive amador, fugiu do encantamento e se aproximou resoluto do velho, erguendo seu braço fino e anêmico, embora não com intenções de verificar-lhe a pulsação. Examinou a mão descarnada e sardenta de alto a baixo, trazendo os dedos para bem perto da vista.&lt;br /&gt;Pareceu bastante interessado nas unhas. Mesmo à distância, não havia como deixar de reparar que eram mal cuidadas. Estavam roídas e manchadas, tomadas por uma espécie de nódoa escura. Tentando enxergar seu interior, Ericsson puxou o quanto pôde a pele no topo, procurando expor ao máximo a fresta natural das cutículas. Uma expressão de triunfo iluminou seu rosto, enquanto se dirigia ansioso aos grandes sacos de lixo atados com nó reforçado perto da cama. Desamarrou o laço duplo e foi enfiando a mão em seu interior, como se já soubesse exatamente que tipo de coisa descobriria ali. Continuou a fuçar sem hesitar, até que demonstrou achar aquilo que esperava. Sem perder a pose, ergueu lentamente um nariz cor de barro em tamanho normal e algo que lembrava uma orelha humana, igualmente modelada. O conteúdo bizarro, se não fosse em argila, indicaria os despojos da atividade escusa de um sádico &lt;em&gt;serial killer&lt;/em&gt; escondendo as provas de sua crueldade insana. Contudo a solução não seria assim tão simples. Os poucos pedaços mal eram tocados se esfarelavam, retornando ao pó de onde vieram. Pela primeira vez o silêncio dominava a situação.&lt;br /&gt;Estávamos tão absortos, ora no desenho, ora no mágico desempenho do nosso investigador oficial, que sequer percebemos Kalhani vindo discretamente por trás, numa leveza digna dos seres etéreos e superiores. Sua surpresa foi instântanea com o repentino estado das coisas reveladas em sua ausência no refúgio do estranho Lars. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O que é tudo isso? – balbuciou, indicando o desenho e os despojos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- As respostas de todas as perguntas – disparou eufórico Ericsson, assumindo em definitivo o controle da brilhante performance que vinha oferecendo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Antes de se empertigar todo, seu convencido, existem coisas mais importantes a tratar do que sua vaidade – recriminou a senhora Marino. – E então, senhor Kalhani? Conseguiu falar com o hospital? Este socorro vem quando, afinal? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Assim que seja possível. Sem previsão. Foi somente o que obtive deles – respondeu, baixando a cabeça desanimado.&lt;br /&gt;- O velho não agüenta tanto! – exasperou-se Norton. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Pobrezinho... – lamentou She, logo acompanhada Female. – Ele vai morrer e não vamos poder fazer nada!&lt;br /&gt;- Bom Deus, como tudo chegou a esse ponto? – sussurrou condoída a senhora Marino. – Até ontem ele estava normal, do jeito reservado dele. E hoje... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não percebem que se alguém deseja a morte, não existe remédio ou tratamento que salve? Nem mesmo sua preocupação e esforços? – observou Ericsson, conformado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes de imaginar um argumento contrário percebi, assim como os demais, que nosso investigador lançara um clarão nas trevas. Não compreendíamos ainda, em nossa ignorância, qual seria o motivo, portanto todos permaneceram calados. Todavia, tornava-se inegável que aquela inusitada e esdrúxula situação apenas poderia mesmo ser explicada convincentemente pelas palavras dele, por mais dolorosas que fossem: o velho Lars decretara sua hora de partir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A resposta sobrevive ao redor de vocês, meus amigos – prosseguiu Ericsson. – O passado do ancião o assombrou noite após noite. Suas lembranças o traíram e desertaram. Lutou contra elas bravamente. A noção da perda era insuportável. Depois tentou desesperadamente resgatá-las, empenhou-se nisso e finalmente, vencido, entregou os pontos.&lt;br /&gt;Ele apontou o desenho, os restos de argila, os apetrechos espalhados e bateu na ponta dos próprios dedos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Um rosto de mulher foi tudo que sobrou. Aquela que amou um dia e provavelmente por toda a sua vida. Mas o tempo prega peças na memória. A velhice cobra um preço bastante caro. Lars percebeu que a imagem dela se desvanecia e escapava. Procurou primeiro desenhá-la. Muito pouco para quem amou tanto. Então tentou moldá-la em barro ou argila. Esculpir um busto que lhe fizesse companhia e alimentasse a alma saudosa. Notem que é uma figura de outra época, um vulto distante da juventude. Talvez uma paixão única e jamais consumada. Como saber? Infelizmente, faltou-lhe capacidade para criar a forma tão desejada. E diariamente o fruto do fracasso era colocado em sacos de lixo que empurrava até à calçada. Achou mais fácil trabalhar na calmaria da noite e dormir durante o dia. A rigor, com exceção disso, ao contrário do que especulávamos, não saía mais para absolutamente nada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ericsson enrolou cuidadosamente a gravura que abrira na mesa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O velho Lars trabalhava nesse móvel. Observem que os arranhões das espátulas, plainas e pás marcaram a superfície, acabando por serem vedados pelos restos do material avermelhado que raspava ou misturava com água nas bandejas. Utilizava a geladeira como local de secagem rápida da mistura, produzindo uma massa consistente. O interior de suas unhas está impregnado, tal como o desenho que manuseava, recorrendo como modelo. No entanto, ele desistiu de lutar contra o esquecimento e a impossibilidade de &lt;em&gt;reviver&lt;/em&gt; a jovem que tanto amou. Aos poucos se largou, deixou de comer e cuidar de si. Aquele saco junto da cama, de onde retirei o nariz e a orelha, são o tributo derradeiro ao crepúsculo dessa paixão avassaladora. O momento em que decretou o final das tentativas e decidiu morrer na esperança de reencontrá-la noutro lugar... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele fora bastante racional e lógico, porém num tom solene carregado de emoção. Não havia quem escapasse à compaixão oriunda de tais revelações, imaginando aquele homem anos a fio na sua luta inútil de concretizar a fisionomia que conquistara seu coração e povoara seus sonhos. Não consegui perceber meus olhos úmidos, a despeito do meu desejo nesse sentido, mas o de todos os presentes estavam. As idéias espocavam soltas na minha mente, se iniciando de um jeito e desenvolvendo de outro, sem encontrar um final coerente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Houve quem sugerisse que não deveriam continuar ali, respeitando a privacidade e o estado de Lars. Claro que ninguém cogitou deixá-lo abandonado até que o atendimento médico comparecesse. Assim, aos poucos, aquele exército da salvação começou enfim a debandar. Kalhani, como responsável e proprietário, de imediato se prontificou a permanecer. O Zumbi, debilmente, apenas escorou-se num canto próximo à cama, mantendo sua passividade inabalável. Também resolvi ficar, embora não compreendesse o porquê dessa decisão. Algo me dizia que aquilo não terminara, que minhas lágrimas talvez ainda escorressem. Ericsson, assim como os demais, veio então se despedir. Considerava a missão encerrada e ansiava pelo aconchego do próprio quarto. Pelo jeito que Larissa se dependurava nele, seu esperado descanso seria adiado e ela, mesmo afônica, manteria a boca ocupada toda manhã. Aliás, todos pareciam ter formado pares, inspirados pelo sentimento que consumira as últimas energias do velho morimbundo: Norton saiu puxando carinhosamente a senhora Marino pela mão, insinuando que ela poderia dispensar os vídeos eróticos pelo resto do domingo, enquanto as escandalosas She e Female, grudadinhas, apenas reafirmaram o afeto que nutriam uma pela outra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes dos travestis partirem, consegui emprestado o espelhinho de maquiagem que carregavam na bolsa abarrotada. Era bastante complicado distinguir a respiração do velho Lars. O corpo parecia mergulhado em irrestrita imobilidade, sem reações perceptíveis. Enquanto Kalhani sentara-se à mesa e fechara os olhos para entoar um “cântico de cura”, me aproximei resoluto do rosto de Lars, silenciosamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Posicionei o espelho abaixo de suas narinas e ligeiramente inclinado sobre a boca de lábios delgados e descoloridos, aguardando que o embaçamento revelasse um vestígio de vida naquele organismo alquebrado. Entretanto, acima das mais loucas expectativas, o susto me fez levantar, derrubar o objeto que estilhaçou-se no piso e recuar na direção do Zumbi. Não havia capturado um reflexo do velho, como se ele fosse um fantasma ou sequer estivesse presente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Kalhani, imerso na sua cantilena monótona, não despertou com meu sobressalto. O Zumbi mantinha-se impassível como antes. Uma outra surpresa foi observar o esforço hercúleo do velho Lars em abrir os olhos vazios, esboçar um sorriso doloroso e chamar-me para perto de si com o indicador descarnado. Ele procurou ser prosaico e adicionar vivacidade ao convite. Porém a espuma saindo pela boca denunciava o limite da sua condição. Sua inofensividade era tão patente que automaticamente caminhei na sua direção, aceitando aquela convocação. Sentei na beira da cama, baixando o ouvido o mais perto possível de sua face. A voz quase inaudível, trêmula, soou como um gongo que despertasse minha alma.&lt;br /&gt;- Seu amigo estava certo, meu irmão de fileiras... Eu a perdi há tantos séculos... Não sei mais quantos... Nem minha memória conseguiu conservá-la... A imortalidade perdeu o encanto. A eternidade virou um fardo insuportável... A hora chegou, já posso e quero partir. Assuma meu lugar, faz parte do seu destino... Devemos cuidar dos humanos, como tomei conta daquele que chamam Zumbi... Suguei boa parte do sangue dele, como faço somente com os que não amam ou respeitam a vida, seja própria ou alheia. Isso se percebe ao vasculharmos seus espíritos e consciências. Reparou como eles são facilmente influenciáveis pela nossa vontade ou ânimo? Não somos os montros retratados pela tradição. Ao contrário, constituímos os maiores justiceiros da raça. A condição de vampiro exige entrega e dedicação. Sinto que será um dos melhores, Zack... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Acho que a falta de sono me deixou sonhando acordado - balbuciei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não consegue dormir ao à noite, pois é uma criatura noturna. Seu organismo irá regularizar quando começar a beber sangue. Não será vítima de doenças mortais, seus dentes cessarão de doer e crescerão no instante necessário. Termine com o Zumbi, sem pressa. Eles se tornam letárgicos quando gradualmente os drenamos... Percebo que não acredita no que digo... Pense bem, Zack... A comida não lhe provoca repulsa? Não costuma sentir-se destinado a algo maior que o mero sucesso mundano ou organizar seus pertences? Não escuta através da madrugada sons que ninguém detecta? Seus ouvidos aflorados não ouvem ao longe asas batendo, roedores devorando sua presa e a baixeza dos indivíduos nocivos que arrancam a alma dos semelhantes? E, finalmente, não acha todos eles banais, repetitivos, previsíveis ou insípidos? Soa familiar? Representa uma outra estirpe de seres... Você acostumará agora que possui essa consciência... Sua transformação se iniciará em seguida... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Foram estas suas últimas palavras. Apagou-se como uma vela que consome o pavio. Sem alarde ou aviso, a conseqüência direta da decisão de abrir mão da vida eterna, da necessidade de tomar o sangue dos que não merecem a dádiva superior de existir. Nunca saberei porque aquele amor imenso não frutificou, que mecanismos os afastaram de compartilhar a felicidade. De qualquer forma, aquilo perdera a importância. O velho Lars não precisaria mais arrastar em monotonia os restos de uma lembraça esmaecida pelo tempo. Agora repousava ao lado da mulher amada, saboreando o genuíno estágio da evolução.&lt;br /&gt;Tratei de me afastar discretamente. Meus movimentos doravante eram de uma criatura sutil, que não deixa vestígios materiais por onde transita. Minhas pegadas de volta sequer ficaram marcadas no assoalho imundo. Puxei o Zumbi pelo braço e desci com ele até seu andar. Estava sob minha exclusiva responsabilidade e, ao anoitecer, cuidaria dele, seguindo as indicações do velho Lars, meu nobre irmão de fileiras. Dirigindo-me ao meu quarto discerni claramente, como se nada existisse impedindo, os ardentes ruídos de Ericsson e da senhora Marino fazendo amor. E também os de Norton e Larissa, mesmo ele machucado para se contorcer ou ela afônica para gemer. Os de She e Female pareciam situados dentro dos meus aposentos, assim como o cântico enjoado de Kalhani vários andares acima. Os sons ganhavam uma dimensão extra. Não meramente os identificava, mas os dimensionava ante minha percepção e julgamento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estava exausto. A manhã avançava e precisava dormir para minha primeira vigília noturna. A existência caótica ganhara um significado palpável. O instinto bloqueava provisoriamente meus novos e aguçados sentidos, proporcionando as condições ideais de descanso. Enquanto a letargia vampiresca se espalhava, refleti sobre quantos amores poderia conhecer e perder nos séculos vindouros. Ou quanto tempo transcorreira até a solidão me esgotar e fazer desejar seguir o rastro do velho Lars, imitar aquele êxtase supremo de desencanto que agora trazia um nó à garganta e sufocava o peito. As lágrimas finalmente escorreram dos olhos e aqueceram minha face, rolando livres ao infinito como meu espírito inquieto.&lt;br /&gt;Uma tarefa árdua acenava à frente, cobrando o melhor da essência imortal que dispunha. Refleti poucos segundos antes de adormecer se algum daqueles pitorescos companheiros de moradia exigiria meus caninos cravados em seu pescoço, me provocando um sorriso compreensivo que dava boas vindas aos sonhos. Intimamente, com exceção do Zumbi, os sabia dignos de indulgência. Apesar dos erros, defeitos, malícias e vícios nenhum deles, a rigor, comprometia o equilíbrio vigente.&lt;br /&gt;Afinal, apenas algumas horas atrás , cada um havia demonstrado ser &lt;em&gt;um bom vizinho&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-871426612747771731?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/871426612747771731/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=871426612747771731' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/871426612747771731'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/871426612747771731'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/04/o-bom-vizinho-em-processo-de-postagem.html' title='O Bom Vizinho (Conto)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-6496024426005521079</id><published>2008-04-17T17:45:00.000-07:00</published><updated>2009-09-24T18:58:03.074-07:00</updated><title type='text'>Arraiais de Amor, Cabos da Paixão (Poesia)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Se percebo no teu rosto a beleza,&lt;br /&gt;Igual é com a expressão do coração,&lt;br /&gt;Nas linhas de toda tua natureza,&lt;br /&gt;Na voz doce que entoa uma canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No emaranhado dos nossos corpos,&lt;br /&gt;O desejo ávido nos mostra o caminho,&lt;br /&gt;A excitação contínua dos destroços,&lt;br /&gt;Que neste ardor revela nosso carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os medos enfim foram calados,&lt;br /&gt;A alegria libertada em sussurro,&lt;br /&gt;E os olhares risonhos aflorados,&lt;br /&gt;Da linguagem íntima no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se no prazer somos um do outro,&lt;br /&gt;Na vida também nos pertencemos,&lt;br /&gt;O amor, mais do que um tesouro,&lt;br /&gt;É a fortuna que compartilharemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-6496024426005521079?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/6496024426005521079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=6496024426005521079' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/6496024426005521079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/6496024426005521079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/04/arraiais-de-amor-cabos-da-paixo-poesia.html' title='Arraiais de Amor, Cabos da Paixão (Poesia)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-972729954181213880</id><published>2008-04-13T11:27:00.000-07:00</published><updated>2009-01-29T07:45:00.400-08:00</updated><title type='text'>Tempo de Drachmar (Conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acontecia quando duas estações se confundiam, pareciam com uma terceira e ainda lembravam uma quarta, sem se misturarem ou desaparecerem. Você já presenciou algo assim, esteja certo. Caso duvide, foi apenas por não ter registrado corretamente na ocasião. Hoje, céptico e amadurecido, concluirá resoluto que nada disso existiu e estará redondamente enganado em seu julgamento. Errar é normal, não desista, principalmente ao vasculhar o passado. Tente de novo. A experiência encontra-se num canto abandonado das suas memórias, aguardando ser resgatada. O que mudou mesmo foram as certezas, o bom senso, o ponto de vista. Talvez se recorde um pouco agora. Uma repentina fagulha de intuição. Antes, entretanto, sem quaisquer compromissos, com muito chão à frente para sonhar, a receptividade em alerta e o olhar liberto de maiores expectativas, o fenômeno simplesmente existia e era reconhecido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma vez a cada ano.&lt;br /&gt;A neve derretia naturalmente, livre da presença do sol sufocante. Os pequenos veios de água riscavam tímidos seu percurso por entre as folhas murchas, desaparecendo e renascendo adiante, formando poças ou apenas umedecendo a terra. As flores desabrochavam vívidas mas não expulsavam os brotos das ramas, por sua vez riscando o espaço ao sabor da brisa. Os poros humanos comprimiam-se e dilatavam-se, acompanhando o respirar da sequência vital de segundo a segundo. O coração vencia convicto as fronteiras do organismo se integrando ao pulsar da natureza. E o raciocínio transbordava abundante, jorrava como uma decorrência onírica desta serenidade caótica, efervescente. As idéias eram puros veios poéticos, ao seu modo também riscando corações e mentes com sua textura indelével, profunda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, o fluxo sanguíneo irrigava a carne com o velho e o novo, o frio e o calor, oxigenando ainda o espírito com os desejos outrora impossíveis. Os opostos podiam conviver como grandes amigos ou parceiros fiéis, em harmonia, daqueles que nunca entrariam em conflito. As impressões constantes se revelavam como uma matéria-prima pronta a ser moldada segundo a vontade ou a sensibilidade dos que percebessem o momento especial. Os sonhos já não se manifestavam somente à noite, deixando generosamente a luz do dia encarregada de despertá-los. Os anos passavam como dias, as horas feito segundos, pois não existia o linear e o definitivo naquilo que todas as coisas se confundiam, pareciam e lembravam umas às outras.&lt;br /&gt;Igual ocorria com tudo agora.&lt;br /&gt;Era tempo de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; e a pequena Mirkha sabia disso. E sentia. A fagulha nela já se transformara em chama, prestes a atear o fogo inevitavelmente. O momento é ideal para apresentá-los. Ela é a carta de alforria da sua compreensão. O código através do qual decifrarão o que não entenderam. O botim para salvar dos recônditos do limbo aquelas memórias há muito esquecidas. Observando que em todo tratamento precisamos fazer a nossa parte, pois nada vem de graça, espero que aproveitem a oportunidade única. Agora vou deixá-los na sua companhia, certo de que irão apreciar tudo que irá lhes revelar, recuperando enfim uma dádiva eterna.&lt;br /&gt;“Hoje posso ser uma bruxa”, refletiu. “De verdade mesmo. Mudar tudo não ferindo nada. Comer uma fruta sem morder a casca. Abrir um presente sem precisar rasgar o papel".&lt;br /&gt;No último &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; constatara extasiada, pela primeira vez, essa possibilidade. O filete vermelho viscoso escorrera do ventre pelas suas pernas, num fluxo contínuo, enquanto tomava banho no riacho. Fora boa a sensação do líquido morno misturado à umidade gelada do corpo. Não sentiu medo algum. Ou dor. Recordava bem do fato de correr nua e excitada até a avó para mostrar-lhe o prodígio: jorrara sangue do próprio corpo sem se cortar ou ferir-se! Ela já estava acamada então. Inerte. Com o olhar totalmente perdido no infinito e a fisionomia estranhamente plácida guarnecida em moldura pela vastíssima cabeleira branca. Porém naquela hora isso pouco importava. Aquilo que um dia lhe contara era verdade e ali, melada em sua pele, estava evidente a prova. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;“Existe uma época, querida, em que tudo pode ser realizado. Ao fitar o céu de dia e conseguir ver a Lua, ao mergulhar na transparência da água e também apreciar o fundo arenoso, ao observar que o verão beija o inverno e a primavera abraça o outono, saberá que é &lt;strong&gt;drachmar.&lt;/strong&gt; Os anseios da infância se materializarão nas aspirações do amadurecimento. De menina chegará à mulher em um piscar de olhos, não precisando descartar a pureza ou a inocência. Aí está o maravilhoso de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt;. Você tornar-se sem perder, fazer sem alterar, transformar sem agredir. No entanto não é simples percebê-lo. Mas ele tem o hábito de revelar-se aos que possuem o dom, na hora propícia, através de sinais. Basta que você o procure muito atentamente, preparada para utilizá-lo corretamente”.&lt;br /&gt;Essa conversa fora há dois anos, numa tarde chuvosa, e nunca mais lhe saíra da cabeça. Ou melhor, dois &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; atrás. A avó nunca descuidara de sua instrução, mas tinha a capacidade de ensinar além do saber convencional. A casa era abarrotada de livros diversos, de origem ignorada, empilhados sem método ou ordem. Era fascinante vê-la utilizar seu discernimento telúrico para localizar em meio ao caos exatamente o volume desejado. Todos cheios de poeira e informações importantes, principalmente após serem explicados pela anciã. Espanando a sujeira com a palma da mão, seus dedos roliços percorriam as páginas emboloradas velozmente, como que filtrando o primordial. As lições diárias traziam sempre as portas de um novo universo. “Nunca seja escrava desse conhecimento”, insistia ela. “Há um prodígio maior lá fora, trate de encontrá-lo e também esteja pronta para ele”.&lt;br /&gt;Passara as semanas e os meses seguintes de olhos bem abertos, com os ouvidos apurados, pesquisando ao seu redor como nunca o fizera. Precisava achar qualquer indício da chegada anual de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; e não perder a chance de operar milagres. De confirmar-se uma digna sucessora na linhagem familiar das bruxas. De assumir uma tradição que começara no instante em que a avó lhe retirara das entranhas da mãe e soprara a vida em sua boca. No mesmo dia em que herdara a condição de neta e de órfã, que se estendia por seus treze anos de vida.&lt;br /&gt;Nesse meio tempo a saúde da velha deteriorara. À inércia juntaram-se primeiro o alheamento mental e depois o sofrimento físico. Uma mancha arroxeada, circular, tomava forma na altura do estômago, logo dominando toda essa área e se espalhando cada vez mais. O hálito contaminado bafejava a podridão do intestino, denunciando a doença desconhecida. As órbitas, comprimidas contra as pálpebras, lutavam incessantemente pela paz. O espírito, invisível e lúcido, testemunhava a batalha aos poucos perdida clamando por rendição ou no mínimo uma ligeira trégua.&lt;br /&gt;A miúda, indiferente ao destino, gastava quase todo o tempo entre a cabana e o bosque catando raízes, trazendo água, fazendo a higiene, enxugando o suor, aplicando inúmeras compressas. Ao ferver a sopa que lhe dava todas as noites, escutava-a balbuciar frases desconexas, palavras ininteligíveis, raciocínios perdidos. Aflorava os sentidos tentando apreender um segredo que fosse no falar confuso. Sua feiticeira adorada conhecia &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; e, ao abraçar-lhe o corpanzil na hora de dormir, rogava baixinho que o mistério se transmitisse no calor do contato.&lt;br /&gt;A preocupação a tornava mais madura a cada dia. Também bastante cansada, embora sentisse uma estranha euforia tomar-lhe o corpo. Fazia tempo que, em face das inúmeras tarefas domésticas, largara os brinquedos de pano, convivendo com as calosidades que surgiam nos pés, nas mãos e nos joelhos. Descobrira no toque um conforto para a fadiga, apalpando áreas que lhe traziam agora uma sensação inusitada. Era bem gostoso massagear-se no banho e deixar aquele arrepio percorrê-la de alto a baixo, opondo tal alívio ao desconforto físico. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Além de tudo, ansiava apenas pela sua emancipação encantada, pelo momento que se tornasse apta a realizar os grandes feitos de qualquer bruxa na plenitude. Não mais visando concretizar seus inofensivos devaneios infantis de transmutar folhas mortas em flores perfumadas ou manipular o barro avermelhado em areia límpida. Mas somente esperando conseguir curar sua avó, libertá-la de quaisquer males, trazer-lhe o alento merecido. Afinal, se até mesmo &lt;em&gt;ele&lt;/em&gt; proporcionava alguma melhora, sem nenhum talento mágico, que dizer dela, uma autêntica druida aguardando a eclosão de seus poderes? Não havia sequer termo de comparação entre ambos e a vinda de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; comprovaria isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vez ou outra aquela enigmática figura de preto passava por ali.&lt;br /&gt;Estacionava em frente à choupana sua carroça, cujo ranger denotava a urgência de óleo, puxada por um cavalo esquálido e exaurido, implorando descanso. Não conseguia proporcionar um mínimo de vitalidade ao próprio animal, no entanto se julgava capacitado a fazê-lo com seres humanos. Trazia uma pequena maleta de couro, gasta e abarrotada de apetrechos de metal. Podia se ouvir facilmente o tilintar enquanto ele caminhava ofegante até o interior do casebre, limpando a transpiração da testa, se escorando no umbral para respirar e sumindo ruidosamente no interior.&lt;br /&gt;“Ele não é um de nós”, deduziu Mirkha, de imediato. “Se fosse não precisaria de objetos, faria tudo com os elementos. E sem nenhum barulho. Aliás, não consegue trazer novas energias nem para si mesmo”.&lt;br /&gt;Espiando de longe ou aproximando-se silenciosamente da janela, vira todo o ritual de lavagem e cataplasmas aplicados na avó. Como tudo aquilo parecia trazer-lhe um relativo conforto, tratou de imitar dentro do possível, no cotidiano. Além disso, evitava cruzar com o estranho personagem. Ele a assustava bastante, embora ignorasse o porquê. Talvez o ar circunspecto, o olhar grave ou sua roupa tão escura.&lt;br /&gt;Aliás, nunca lhe pareceu que a procurasse, muito pelo contrário. Ele sondava o ambiente como se adivinhasse a sua presença ou captasse o seu cheiro. E rezasse para não detectar um e outro perto de si, como quem pressente um fardo.&lt;br /&gt;Porém um dia o encontro ocorrera, inevitavelmente. Ela se refugiara no seu recanto. Estava toda alegre montada no seu tronco junto ao regato, batendo ligeiro os pés no chão. Ultimamente descobrira um delicioso prazer em sentar sobre a madeira e balançar-se com as pernas abertas, num ritmo constante, sentindo o contato rígido esquentar as suas virilhas, pressionando-a de um modo diferente, agradável.&lt;br /&gt;O gozo impediu-a de vê-lo chegando. Quando descerrou os olhos para a claridade, respiração ofegante, face satisfeita, testemunhou a censura estampada na sua frente. Por uma fração de segundo, um tipo de ternura acendeu o rosto dele para em seguida se dissipar. Levantou com a mão pálida seu queixo, obrigando-a a encará-lo quisesse ou não. O som da voz dele... Como esquecer o que disse então?&lt;br /&gt;“Você é o retrato da sua mãe”.&lt;br /&gt;A frase não surtiu o efeito que seria o normal. Mirkha tentou mas não pôde sorrir. Permaneceu imóvel, em transe, sem se desvencilhar do contato forçado.&lt;br /&gt;“Terá de ir daqui, querida... Cedo ou tarde. Goste ou não. Sua avó está no fim das forças. Você não poderá cuidar-se sozinha. Acostume-se com a idéia. Só estou pensando na sua segurança, no seu futuro. Nada mais que isso... O mundo de verdade está lá fora, além desse bosque e da choupana que vive. O seu novo lar...”.&lt;br /&gt;“Sabedoria de curandeiro”, pensou, quando ele se afastou tão rápido quanto surgira. “Eu nunca sairei desse lugar. &lt;strong&gt;Drachmar&lt;/strong&gt; emana dessa terra. E uma bruxa não tem dificuldades de sobreviver. Consegue tudo o que necessita com um gesto. Posso me misturar entre as árvores e ninguém me achará. Me transformar em um animal e esconder-me numa toca. Fazer surgir asas nas minhas costas e voar a distância que convir. Basta que alcance o grau de iniciada, brevemente...”.&lt;br /&gt;E, repentinamente, durante aquele banho no riacho, conforme sua boa mestra sempre previra, ela se tornara merecedora. Penetrara &lt;strong&gt;drachmar &lt;/strong&gt;com naturalidade, só conscientizando o estado quando este já tinha se instalado em definitivo. Extraíra sua seiva de modo indolor, jorrara sangue de seu íntimo sem rasgar a pele, o simples toque do próprio corpo a enchia de grandes esperanças. Modificara drasticamente a sua integridade sem perda da serenidade ou agressão à individualidade. &lt;strong&gt;Drachmar&lt;/strong&gt;!&lt;br /&gt;Agora, meses à frente da conversão, ao iniciar-se um novo ciclo anual de feitiçaria, estava apta a exercê-lo. A fazer pela pobre avó o que esta não podia mais. Postando-se ao lado do leito da anciã, em vigília, retirou de uma cesta, ao invés de raízes, um apanhado de folhas secas; e, do cântaro, no lugar da água, um punhado de barro encarnado. Suspirou. Cuidadosamente cobriu o rosto enrugado e transtornado dela com algumas folhas, espalhando a seguir lama sobre o hematoma que borrava o ventre. Satisfeita com a arrumação dos elementos inclinou-se sobre o leito, sorriu cheia de otimismo e, concentrada, dedicou-se à transmutação desejada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Contrita, fechou os olhos, apertou as mãos dela nas suas e aguardou a suprema metamorfose de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; que mudaria folhas em flores, barro em areia. Mil pensamentos e imagens povoavam sua cabeça em seqüência: cores, símbolos, rostos, bichos, o regato, o tronco, o filete de sangue... Percorria grandes distâncias, atravessava as estações do ano, se elevava até os astros e planetas mesclando-se às estrelas. Era uma visão deslumbrante de um universo inserido em caleidoscópio, sensorial ao extremo, de fronteiras transcendentais. Um mergulho na cachoeira cósmica, um passeio entre nebulosas longínquas e um labirinto repleto de cores, impulsionado pelo total desprendimento de doar-se a um bom objetivo, ao invés dos banais caprichos pessoais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;“É para você, vovó”, meditou, do fundo de seu ser. “Como na hora que me retirou do interior da mamãe e beijou a vida em mim”.&lt;br /&gt;Minutos após, ao despertar da letargia induzida, viu, de maneira que juraria pelo resto de sua existência, a folhagem murcha adquirir viço, ganhar tons variados e desmanchar-se em pétalas aromáticas que expulsaram o cheiro ruim da boca. E, de forma conjunta, a lama rubra perder o rubor, refinar-se, sendo absorvida pela carne, tornando o ventre saudável, alvo, e apagando a nódoa avermelhada. Os ignorantes explicariam tudo como uma coincidência: diriam que a água desmanchou as folhas e criou um ligeiro perfume, lavando o mau hálito da enferma. Ou mesmo que a nova brancura da barriga se devia à coloração obtida na mistura da porção de barro umedecido com a pele ressequida. Entretanto, como explicamos no princípio, a memória nos prega suas peças, esconde a verdade e exibe fatos mal camuflados.&lt;br /&gt;A pequena Mirkha testemunhara todo o processo. Assistia não apenas os traços de flores que emolduravam uma face enfim serena, assim como uma pele branca, desobstruída, similar a uma tênue mortalha que resguardava um corpo que encontrara sossego. Via e respirava, ao contrário da avó, não somente o odor que substituíra o bafo fétido, tal qual o frescor que emanava suavemente de cada poro desintoxicado pelo bálsamo que, ao esfarelar-se, conduziu-a de volta ao pó e ao descanso eterno.&lt;br /&gt;Sim, ela assistira, sem qualquer dúvida ou engano. Melhor ainda, fora a responsável pela deslumbrante cura. Entretanto a maioria não poderia fazê-lo por não conhecerem os segredos de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt;. Afirmariam que nada consistia além da fértil imaginação de uma menina solitária. Ou do produto casual de fenômenos naturais e de simples reações orgânicas. A rigor, a opinião alheia carecia de importância. Talvez um preço barato cobrado pelo indescritível bem-estar de ajudar e fruir aquela essência. Era delicioso viver em meio à natureza selvagem, sentindo no espírito toda a gama de prazeres agora evidentes, conduzindo seu instinto rumo às experiências inéditas. Os banhos de riacho e as cavalgadas no tronco jamais seriam as mesmas.&lt;br /&gt;Saiu.&lt;br /&gt;O êxtase pela cura da avó tomava conta dela. Sentia-se mais criança do que nunca todavia não extravasava como tal. A embriaguez total de &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; a contagiava vibrando ininterruptamente. O sangue escorria em jatos pelas suas coxas confirmando o pacto mágico, lembrete que vinha se repetindo mensalmente. Ela era mulher e inocente, adulta e ingênua, uma sem sobrepor ou anular a outra. Tinha a capacidade de se metamorfosear em todo animal e ignorar a dimensão estática das distâncias. Voaria ao topo dos céus ou ainda afundaria nas águas sem dificuldade alguma.&lt;br /&gt;Feliz, abraçou o verão e o inverno, beijou a primavera e o outono.&lt;br /&gt;Acenou para a Lua que passeava acompanhada do Sol, mergulhou na areia e secou-se na água. Dançou com as coisas que se confundiam, pareciam ou lembravam entre si. Aquele era o seu pedaço de chão e permaneceria ali por toda a sua vida. Riu da sisudez do homem sem nome e de suas preocupações relativas à sua sobrevivência. Um simples bater de mãos e teria tudo que necessitasse.&lt;br /&gt;Saltou célere sobre o vento. Agarrou ágil inúmeros raios de luz, sem que se misturassem ou desaparecessem por entre seus dedos. Vestiu o corpo com nuvens, confeccionou um chapéu de fogo, fez anel e colares de sementes e cascas.&lt;br /&gt;Detectou a alma da avó manifestando-se em tudo: saudável, sublime, livre, pairando sobre as estações, flutuando acima das folhas e das flores, do tronco e do riacho, reciclada à areia e ao barro numa fusão solene que acendia o otimismo.&lt;br /&gt;Ela, Mirkha e &lt;strong&gt;drachmar&lt;/strong&gt; estavam unidas para sempre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-972729954181213880?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/972729954181213880/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=972729954181213880' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/972729954181213880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/972729954181213880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/04/tempo-de-drachmar-conto.html' title='Tempo de Drachmar (Conto)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-2408920530917498272</id><published>2008-04-09T14:54:00.000-07:00</published><updated>2009-02-01T05:30:29.476-08:00</updated><title type='text'>O Último Adeus (Conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seria a última vez que veria Nicholas Serpinsky.&lt;br /&gt;Seu melhor, e único, amigo.&lt;br /&gt;A melancolia pela certeza dessa despedida era mesmo inevitável. Um sentimento vago de tristeza dilacerada que o dominava até a medula. Similar às gotas que escorriam desencontradas pela vidraça de sua janela, impossíveis de aglutinar numa só, esparramando-se invisíveis enquanto buscavam sua trilha. Uma frustração indecifrável nas conseqüências, embora justificável nas causas. O gigante russo de olhar penetrante, feições rudes e hábitos simples contribuíra, em muito, naquilo de essencial que possuía atualmente. Desse modo, como consolo, revolvia as inúmeras lembranças, saboreando cada ensinamento transmitido pelo grande companheiro nos seus anos de convivência. Nada fora inútil para sua formação, tudo auxiliando ao homem que estava prestes a se tornar. Uma passagem dolorosa, visceral. Orientada por um herói que se tornara seu reflexo no espelho, a voz potente acima da nevasca, a bússola que o guiara incólume em jornadas cruciais e sombrias.&lt;br /&gt;E hoje iria encontrá-lo pela última vez.&lt;br /&gt;Ele o avisara disso bem antes, em várias oportunidades, preparando o seu espírito aos poucos para o afastamento. Eliminando o fator surpresa do evento, como costumava dizer. Tal qual no dia que perseguiram lobos na taiga, por exemplo. O crepúsculo sem sol manifestava-se no entardecer de chumbo, transfigurando a pradaria em berço de um firmamento soturno, pesado, hostil. Os rigores do inverno aproximavam-se gradativamente, limitados então ao orvalho congelado e ao granizo saliente que espocava surdo sob seus pés trôpegos. Em contrapartida, a vegetação rala e rasteira, típica do norte da Sibéria, facilitava a investida, poupando esforços. Na ausência de esconderijos naturais, caçador e caça travavam uma disputa limpa, justa. Porém, o vento gélido e cortante os obrigara a suspender as golas ao máximo. As abas do boné baixadas inteiras sobre as orelhas, as grossas luvas de couro cru aparentando garras, o casaco maciço, surrado e sebento de cor parda confeccionado de camurça, mais os faziam parecidos com ursos, realçando-os no panorama alvo da planície desnuda, desequilibrando assim as chances da contenda.&lt;br /&gt;Paciência. O frio intenso, independente da estação do ano, exigia que não deixassem um milímetro do corpo a descoberto, exceção apenas aos olhos. Senão corriam o risco de suas carcaças descansarem ali eternamente. A precaução fora assim extremamente eficiente. Apesar de dificultar os movimentos e revelar a presença, o bem-estar do calor redobrou seus ânimos permitindo, desta feita, que dois ursos capturassem quatro lobos. Um belo resultado para uma jornada de trabalho inóspita, árdua, a princípio sem maiores perspectivas de sucesso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto, horas depois, sob a proteção de uma lareira e uma cabana, Nicholas esfolava os animais, pensou, como ao retomar estas reminiscências, no que ele lhe ensinara. Achar nascentes, seguir rastros, interpretar vestígios, perceber tempestades, distinguir os cogumelos venenosos dos comestíveis... Uma série de coisas. As situações boas se apresentam enganosamente duradouras, a despeito do temor que o destino, de repente, as surrupie. Talvez por isso ressurgem na memória com freqüência, desviando a concentração das questões momentâneas. Dessa maneira, alheio, ao mesmo tempo em que iniciava o método de curtição da primeira pele separada, viera o aviso ao qual não prestara a devida atenção na ocasião.&lt;br /&gt;- Escute... – o urro vigoroso, enérgico, mas compreensivo, ecoara no interior da choupana de pinho sem interromper o trabalho de destaque da segunda pele. – Não poderei acompanhá-lo para sempre. Outros aprendizes necessitarão da minha ajuda e experiência. Chegará o tempo em que você terá de caminhar sobre suas pernas. E não deve ter medo de enfrentar o horizonte. Conhece os ventos, os rios, os ursos e os lobos. Tanto quando afoitos, quanto tranquilos. Sabe o que fazer numa ou noutra circunstância. A diferença é que estará sozinho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Continuara o curtimento mergulhado dentro de si, tratando a couraça no molho de tanino e baganha. A mistura líquida das cascas e sementes de linho exibia um aspecto nada atraente, decorrente do mosto de linhaça fermentado em salmoura. Apoiando a grande bacia no rés-do-chão, mantinha a pele estendida com firmeza, embebendo os pelos de ponta à raiz no óleo grosso e escuro. A seguir, com os dedos em forma de concha, alisava-a com movimentos uniformes impedindo seu enrugamento, emergindo-a no intervalo exato, garantindo a sua flexibilidade depois de completamente curada. Uma tarefa que exercia com habilidade impecável, não havendo até necessidade de fixar a vista na função.&lt;br /&gt;O fogo crepitava alto estalando a madeira úmida, expelindo rolos de fumaça branca e delgada pela chaminé de alvenaria. O rubor das chamas marcava um contraste com os tons cinza e prateado da pelugem dos lobos, atraindo o olhar do aprendiz com seus desenhos coloridos, seus movimentos desconexos, sua dança bizarra. O poder hipnótico daquelas labaredas insinuantes o conduziu, então, das recordações pessoais para as de seu mestre. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nicholas fora um cossaco. Conforme a tradição eslava jamais deixaria de sê-lo. Contava histórias de suas façanhas anos a serviço do Czar, contudo sem vangloriar-se delas. Pelo menos, não de um jeito tolo. O seu orgulho provinha de nunca ter humilhado ninguém com sua coragem ou força. A bravura, dizia, não é derrotar o inimigo e sim domar a própria prepotência. Porque pisar no vencido denotava esmagar a condição humana, já que os homens não se dividem em vitoriosos ou até derrotados, generosos ou mesmo maus, menos ainda em heróis ou covardes. Vira acontecer de tudo um pouco, explicara com riqueza de detalhes, no entanto todos consistiam, fundamentalmente, gente de carne e osso. Terminado o embate o que ficava era um semelhante. Alguém que tinha o direito de viver segundo certas responsabilidades. E assumi-las sob o risco de pagar um preço adiante. Talvez nisso se resumisse a mais valiosa das lições que ministrava, pois serviria em qualquer época, lugar ou situação: o respeito pela vida e a consideração pela liberdade de escolha.&lt;br /&gt;Entretanto poucos pensavam como Nickie. Os camaradas de fileira, em especial, nunca. Consideravam-no um anacronismo vivo, uma contradição elaborada sobre sangue e suor, sorriso e compaixão. Admiravam-no somente por sua capacidade de combate, pela destreza manuseando o sabre e, principalmente, pelo sucesso na sedução de damas ou camponesas. A campanha do Cáucaso o indispôs com seus superiores, levando-o a abandonar o convívio das tropas e das batalhas. Seu bom senso indicou-lhe que seu conceito de glória e honra era muito particular, não havendo eco para tais no turbilhão dos conflitos, na frieza do extermínio em massa. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5230291126745034146" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_zd9sidVvmus/SJW6EYmD7aI/AAAAAAAAAHQ/bbg9yZY27DM/s320/nicholas.jpg" border="0" /&gt;Assim voltou a habitar nas margens do Don inferior, nos rincões gélidos da Ásia Central, local onde nascera e crescera. Pôde novamente assistir ao degelo do rio na primavera. Observar aqueles sólidos blocos que suportavam a passagem de uma tropa partirem-se por inteiro ao serem afagados pelo calor emergente, sem perder a grandiosidade. Desde então fez das florestas e das estepes seu campo de ação, buscando paz, almas e o próprio sustento com a imponência de quem se reconhece parte integrante de um todo. Abandonara o rancor pela compreensão, a frustração pela esperança. E fora numa destas cavalgadas com a liberdade que Nickie lhe encontrara e o adotara, em sua característica intuição da hora exata para intervir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele se encontrava em perigo mortal, cercado por lobos famintos e sem caminho para a fuga. Às suas costas apenas um rio revolto sulcado pelas forças do descongelamento, oferecendo riscos tão grandes quanto às bocas sequiosas dos animais. Enquanto tentava com um tosco pedaço de pau manter tantas mandíbulas afastadas de sua carne, o pensamento voava à procura de um milagre de última hora. Já havia recuado até o limite da margem, confundindo seus gritos de socorro e pavor com o estrondo da correnteza que engolia os derradeiros blocos flutuantes da superfície antes gelada. O suor em seu rosto se confundia com lágrimas que não conseguia evitar. A consciência do fim precoce em região tão longínqua e solitária, a certeza de que seus sonhos não se concretizariam, legaram ao seu olhar a sombra do desencanto perante à fatalidade. Podia sentir o hálito das feras cada vez mais próximo, assim como o rugir caudaloso e nada convidativo na retaguarda...&lt;br /&gt;Quando Nicholas, repentinamente, saltou no interior do círculo mortal que os animais desenharam em torno dele, apenas teve tempo de discernir a rapidez pela qual a bicharada era abatida. Os estampidos secos se sucederam em número de seis e não houve desperdício de munição. O cheiro da pólvora alcançou suas narinas e a visão dos corpos amolecidos desabando ao chão tranquilizou sua mente, embora os nervos ainda chacoalhassem frêmitos pela tensão experimentada. O sorriso confiante dele foi o que de primeiro notou em seu semblante. Não apenas euforia pela façanha realizada, mas satisfação pela vida arrematada da morte no instante derradeiro. Nickie o salvara e continuaria fazendo-o pelos anos vindouros. Iria lapidar tudo, do seu temperamento ao modo de encarar o futuro, além de lhe servir de companhia nos anos de solidão e recolhimento no alojamento, até a façanha seguinte. Uma tranqüilidade relativa e eventualmente adiada pela deliciosa presença de uma mulher, pelo ardor de uma alma feminina. Certo dia o guerreiro surpreendeu-o trazendo uma bela jovem de curvas perfeitas, trajando um corpete bem apertado. Ela segurara sua mão com um sorriso travesso e o levara para o interior de um aposento, acendendo uma lareira dentro dele pelo resto da sua vida. O fogo da iniciação sexual permaneceu aceso, sempre alimentado por novas raparigas.&lt;br /&gt;O bruxulear das chamas o trouxe de volta àquela realidade, saudando ainda o término da tarefa de destaque e curtição das peles dos lobos. As quatro se encontravam prontas e seriam excelentes mantas para vários invernos rigorosos. O balançar de cabeça aprovador de Nicholas era fundamental e acabara de recebê-lo. Agora não havia nada entre eles e podiam se fitar demoradamente, conversando do jeito íntimo mas incisivo que era a marca registrada dele ao deflagrar um tópico que elegera importante. O silêncio, ansiando ser quebrado, simulava conspirar com tudo.&lt;br /&gt;- No dia que o resgatei dentre as bestas que o acossavam... – incrível como ele parecia ler seus pensamentos, captara suas lembranças no ar. – Você se colocou numa posição de flerte com a morte. Correu um risco desnecessário e nós sabemos o porquê... Queria o caminho mais fácil, menos indolor... Chegar rápido ao fim... Buscou um desvio... Mas na vida não se deve procurar atalhos... Precisamos vivenciar todas as etapas, acrescentar uma a uma na construção da personalidade... Ao se deparar com o limite tênue entre os dois mundos se conscientizou disso, meu filho, e retornou para o seu lugar, para a sua trajetória primitiva...&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Meu filho&lt;/em&gt;”... Se pudesse ter convivido com os próprios pais talvez não se metesse naquela enrascada. E provavelmente não depararia com Nicholas. A sensação da laje fria do parapeito da janela do alojamento ainda assombrava sua memória. Na frente de si somente um imenso vazio materializando o convite à queda fatal. No fundo do precipício de concreto urbano a imensa serpente negra do asfalto, uma caudal tortuosa percorrida pela fúria ruidosa de automóveis e suas buzinas. Atrás, a ferocidade de seus demônios interiores, de suas fraquezas mal assimiladas, aguardando sequiosos a decisão de escapar dos monstros e mergulhar no caos.&lt;br /&gt;No entanto o russo o salvara... Esmagara os lobos famintos e ignorara a força selvagem da corrente fatal. Trouxera o milagre da esperança e o percurso da existência. Dera-lhe a mão, amor e compreensão. Além dos ensinamentos cruciais para ir adiante, explorar a própria índole e preencher suas expectativas pessoais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aproximou-se da mesma laje, do mesmo parapeito. Pela janela imunda de fuligem enxergava as chaminés das fábricas cuspindo o negrume dos detritos pelas tubulações. O dia era escuro como aquele no qual caçaram animais na taiga. A garoa persistia monótona, repetitiva, débil. O engarrafamento de veículos também, enfatizando o ridículo das situações corriqueiras e inúteis, das atribulações triviais. A fumaça, a chuva e o trânsito não impediriam porém a vinda de Nickie. O cossaco assumira o papel de seus pais. Povoara sua imaginação de aventuras vibrantes e conselhos ponderados. Ele o criara e fora criado por ele, concebido por sua carência de companheirismo e de afeto. Deixaria de existir hoje porque a criança amedrontada que o chamara, o adolescente desesperançado que suplicara urgentemente sua interferência, descortinara a via correta para a idade adulta. O bom senso clamava então que o liberasse para outros órfãos ou novos necessitados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Talvez você se pergunte que utilidade terá todas essas coisas que lhe mostrei durante tantos anos, em seu cotidiano... – observou o gigante, enquanto se acomodava pela última vez na cadeira ao lado da cama. – A temperatura das nascentes, a rebeldia da tormenta, o temperamento do urso e o sabor dos melhores cogumelos... São sua herança, meu filho... Sua autêntica riqueza, &lt;em&gt;meu&lt;/em&gt; &lt;em&gt;pai&lt;/em&gt;... Use-as da maneira adequada e entenderá o segredo da naturalidade, da percepção, do que é espontâneo. Nenhum problema se manifestará como insolúvel então. Risco algum será gratuito, infinito ou até mesmo assustador. As experiências nunca escreverão um capítulo derradeiro, mas um prólogo para novas narrativas. Existirá sempre uma saída, pois amará a vida e o prazer de viver acima de tudo... E confiará no futuro, no curso dos acontecimentos e, especialmente, na felicidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;“Adeus, Nicholas”, murmurou, nos segundos que o corpanzil precisou empregar para se erguer resoluto, menear a cabeça, caminhar uns poucos passos e dissolver-se através da parede que o separava do ambiente exterior, do universo infinito. A visão marejada bastou para acompanhar ele se afastando e sumindo em um horizonte que parecia todo encomendado sob medida para a ocasião, gerando uma solenidade particular. Ele era imortal, sobreviveria em qualquer circunstância.&lt;br /&gt;Surpreendeu-se por sua reação não conter tristeza ao vê-lo partir. Ao invés, uma doce resignação em forma de saudade. A mesma de quem lembra de um brinquedo da infância ou um namoro da juventude. Com a diferença que conseguia visualizá-la à perfeição nesse exato momento, medindo seu calor, sua consistência, seu comportamento e seu sabor.&lt;br /&gt;Nascentes, tormentas, ursos e cogumelos... Sim, as lições do camarada Serpinsky, que ganhava mundo diante de seus olhos e ficava gravado em seu coração eternamente. Afinal, era o mesmo Nickie que um dia lhe estendeu a mão, espantou seus temores e despertou sua confiança, fazendo de uma criança algo mais que um homem, um ser humano.&lt;br /&gt;E que hoje lhe dera adeus pela última vez. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-2408920530917498272?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/2408920530917498272/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=2408920530917498272' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2408920530917498272'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2408920530917498272'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/04/o-ltimo-adeus-conto.html' title='O Último Adeus (Conto)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_zd9sidVvmus/SJW6EYmD7aI/AAAAAAAAAHQ/bbg9yZY27DM/s72-c/nicholas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-3812595264891563965</id><published>2008-03-31T21:18:00.000-07:00</published><updated>2009-01-29T10:34:46.148-08:00</updated><title type='text'>Réquiem aos Sonhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A Lagoa Rodrigo de Freitas, em Ipanema, quando a noite avança nas suas horas e os que não arriscam aconselham evitar seus caminhos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Onde o perigo da segurança é tão grande quanto a perdição das esperanças e a morte das ilusões. Quando as luzes da cidade e os vestígios da Lua transformam sua superfície numa gigantesca face mágica, enquanto a brisa cava olhos e nariz estilizados, a correnteza suave delineia uma boca e o riscar rápido dos cardumes constitui o emaranhado dos cabelos. Se tudo foi uma pueril ficção, que ao menos ganhe uma injeção de poesia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aquela mesma serenidade da paisagem imagino em seus olhos, no seu rosto, mesmo à distância, independente das circunstâncias ou dos momentos de vida. Uma transparência construída em prazer, toda guardada no seu íntimo, amparada na vontade de fazer o que gosta, enfeitada pelo seu belo e largo sorriso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O vento brando na Lagoa sussurrava e trazia tais impressões. Fazia folhas voarem, levantava um pouco de poeira, tornava as coisas um pouco turvas mas em seguida tudo voltava ao normal. Faz parte da vida que os ventos, certas vezes, semeiem cíclicas tempestades ou turbulências. Porém também podem apenas balançar de leve os galhos e as plantas, movimentar suavemente todo um espelho d'água. O que eles nunca fazem, como no seu caso, é poder desvirtuar o todo, distorcer o âmago.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seu olhar sempre voltará a ser límpido, sua face sempre retornará à alegria. Seus momentos de confusão, duvidas ou angústias não passam de uma aragem que assim como vem, desaparece. Tornando-a mais forte e preparada, pois curvar-se ao vento não é render-se, mas simplesmente se posicionar, esperando que ele passe até o espírito retornar à normalidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Observando a ação final dos ventos na Lagoa fiz meus inventos. Juntei na minha mente aquelas folhas que flutuavam nas margens, construí um belo tapete mágico e imaginei ele indo ao seu encontro, levando-a para onde desejasse. Pode subir nele, querida, é seguro. Assim como ele vai, ele também volta, e a fará muito mais segura e imune às dúvidas. De qualquer forma, estarei sempre aguardando o término das suas tormentas e o pouso sereno do seu tapete.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Abençoado pela imagem superior do Cristo Redentor, o dia está amanhecendo. Sua fisionomia se apaga na Lagoa, misturada às águas de todos os horizontes e dos lugares que cabem dentro do coração. O dia enfim clareou contudo não existe maior segurança, mesmo nos trajetos iluminados e sinalizados. A única sensação que não se desvaneceu foi o buraco no peito, a ferida que se espalha em cada ritmo da respiração. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;As coisas são o que não precisavam ser&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesse momento, carentes de porquês ou utilidade, dolorosamente, os sonhos eternamente compartilhados enfim dissolveram na execução desnecessária de seu réquiem, na indução de um destino vazio e sedução de um rumo ignorado. O passaporte definitivo de um adeus incompreensível no que destruiu e cruel no que deixou devastado, apoiado na cômoda justificativa da passagem do tempo, até o vencimento de sua validade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Contando que a nota derradeira desta partitura jamais seja tocada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3812595264891563965?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3812595264891563965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3812595264891563965' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3812595264891563965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3812595264891563965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/rquiem-aos-sonhos.html' title='Réquiem aos Sonhos'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-2971852947255577938</id><published>2008-03-28T12:15:00.000-07:00</published><updated>2009-02-04T15:02:32.223-08:00</updated><title type='text'>O Anel Que Tu Me Destes (4a. Parte)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O clima ficou pesado na Maison Léclair, após Cris, na sua condição de Chefe de Investigações, encerrar o seu relato. A busca no terreno baldio havia sido infrutífera e o espetacular anel, a esta altura, se encontrava distante, nas mãos de um ladrão anônimo.&lt;br /&gt;- O caminho agora é colocar nosso departamento analisando as fichas criminais, buscando uma identificação precisa através do perfil da ocorrência: habilidade, impulso, frieza, áreas de atuação, etc. Além disso espalharemos a rede de informantes concentrada no mercado de receptação de jóias. Ele não terá vida fácil em se livrar do produto.&lt;br /&gt;- Nós que não teremos vida fácil, Chefe Cris – retrucou Goldstein, trêmulo e visivelmente abatido. – Encontrar a peça impediria tantos transtornos que virão aos envolvidos e interessados.&lt;br /&gt;- Não podem chegar a um acordo? Resolver numa conciliação?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Existe um conflito de interesses. A seguradora denunciará de saída o aspecto pouco ortodoxo da transação. Acusará o estabelecimento de irresponsabilidade comercial irrestrita. Nossa empresa exigirá o reparo do senhor Bartholomée e este se defenderá alegando que não recebeu a segurança necessária nas instalações da Maison. Sem falar que poderia até desistir da transação. Pierre tem direito de alegar isso. Todos têm direitos na história. Resta saber sobre quem recairão os deveres, as obrigações.&lt;br /&gt;- A despeito das tentativas múltiplas – ressaltou Bartholomée – tudo se processará exatamente como Davi acabou de descrever. A seguradora empurrará a primeira pedra da fileira de dominós, iniciando uma reação jurídica em cadeia. Muito desagradável.&lt;br /&gt;- Serei a pedra dianteira na queda – lastimou-se o gerente.&lt;br /&gt;- O que no momento presente seria bastante inconveniente, certo? – comentou Peter.&lt;br /&gt;- Não entendi... O que insinua?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Apenas imaginei que, na luta pela sobrevivência, cheio de contas e compromissos a saldar, despesas diversas, perder o emprego seria um golpe duro de absorver...&lt;br /&gt;- Como para qualquer cidadão comum que trabalha e depende integralmente do salário que recebe, senhor Schmoll – retrucou friamente Goldstein, evidenciando que não o chamaria mais de Peter por muito tempo.&lt;br /&gt;- Desculpe meu comentário então. Mas não consigo mesmo vê-los como “pessoas comuns”. Talvez eu, Cris, Leo e o Chefe de Segurança ali no canto sejamos meros tipos banais. Quanto ao distinto casal Bartholomée, o senhor e mesmo seu reservado auxiliar me parecem gente de outra categoria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Manera, Peter – sussurrou-lhe Cris. – A tarefa acabou, esquece... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estavam todos acomodados na sala de estar. De um lado, como numa arena, os “seres superiores”: o sofisticado gerente Davi Goldstein, o calado assistente sem nome, o emérito advogado Pierre Bartholomée e sua devotada esposa que, ainda de compressa ajustada na cabeça, melhorara e viera se juntar à reunião. Do lado oposto da contenda, a “raia miúda”: o infatigável pesquisador de temas mundanos Leo, o persistente Chefe de Investigações Cris e Peter Schmoll. Ao fundo, em pé, sem desfrutar do conforto das maravilhosas poltronas Berger originais, o confiável Chefe de Segurança da Maison Léclair.&lt;br /&gt;- Ao que parece, Peter, deseja caracterizar uma luta de classes aqui – apazigou Bartholomée, tentando conferir uma pitada de humor ao comentário. – Posso lhe garantir que, a despeito do que galguei na minha atividade, sou alguém comum, que trata todos igualmente. Qualquer empregado ou subordinado meu atestará isso.&lt;br /&gt;- Contudo é justamente você quem me intriga, senhor Bartholomée.&lt;br /&gt;- Como, Peter? – surpreendeu-se. – O normal seria o contrário! Por que o intrigaria?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peter levantou-se e começou a perambular no meio do largo círculo de poltronas.&lt;br /&gt;- Trinta minutos atrás eu e meus colegas estávamos sentados numa tal Birosca do Lucas, em frente ao fatídico terreno baldio. Um lugar de gente abaixo do comum. Vocês não passariam na porta, embora confesse que se pudesse também evitaria. No momento exato que concluímos que o anel não seria achado ali, uma coisa curiosa ocorreu. O esforçado sargento que liderava a equipe de busca veio falar conosco, implorando permissão de tirarem a camisa. O sol abrasante os estava cozinhando vivos. Foi impossível conter o pensamento: “gente comum sente calor e transpira”.&lt;br /&gt;Ele captara a atenção da audiência, se tornara o centro das atenções, alimento perfeito do seu ego insaciável e mente brilhante. Porém onde pretendia chegar nem seus parceiros conseguiam perceber. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Todos sofrem nesta temperatura - gracejou Bartholomée.&lt;br /&gt;- Será? Então por que o senhor saiu de casa hoje com esse pesado sobretudo, um casacão típico de clima europeu? Se resolveu trajá-lo, não deve suar...&lt;br /&gt;Pierre Bartholomée empalideceu. A experiência em tribunais porém o ensinara a recompor-se numa fração de segundo.&lt;br /&gt;- Poderia dar-lhe inúmeras razões de me vestir assim. Devo?&lt;br /&gt;- Não – concordou Peter. – Nada o obriga a prestar-me explicações.&lt;br /&gt;- Então estamos sintonizados.&lt;br /&gt;- Em contrapartida - emendou Peter – nada também me impede de contar-lhes uma história incrível.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peter serviu-se de suco de laranja e esvaziou o copo num gole.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O ponto nebuloso desse caso foram as circunstâncias do roubo. A principio, a pior conjunção havia se formado: um golpe de ocasião, regido por sorte e casualidade, sem premeditação, realizado por um profissional competente e frio. A receita do crime perfeito, senhores, praticamente impossível de desvendar. Houve um raio na escuridão contudo: para escapar à perseguição, o ladrão se livrara dos objetos atirando-os num terreno baldio. Como a mercadoria era muito mais importante do que pegar o criminoso, conforme deixaram claro, os esforços foram concentrados em recuperá-la. O larápio, imune às descrições ou detalhes, que sumisse nas trevas e fosse procurado pela polícia.&lt;br /&gt;Havia expectativa no ar, apesar do resumo até então não apresentar novidades.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- No entanto o anel não ficou no terreno baldio. Somente a carteira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Claro, Peter – admitiu Cris. – Uma dedução perspicaz da sua parte. Por isso os ânimos aqui afloraram. O sumiço da jóia frusta alguns e preocupa outros.&lt;br /&gt;- Mas a pérola &lt;em&gt;South Sea&lt;/em&gt; não sumiu, Cris. Ela está mais próxima do que supõe.&lt;br /&gt;A estimada audiência de Peter Schmoll explodiu. Somente a senhora Bartholomée, ainda sofrendo os resquícios da fortíssima enxaqueca, permaneceu observando impassível. Aqueles que não se engasgaram com a bebida logo demonstraram toda a sua indignação, incluindo o apático assistente do gerente.&lt;br /&gt;- O que pensa, senhor Schmoll? Sua fama não lhe dá certas liberdades!&lt;br /&gt;- Insinua que acobertamos o roubo?&lt;br /&gt;- Exijo que se retrate ou responderá um processo!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era difícil especificar na balbúrdia quem protestava o quê. Os gritos se confundiam, a algazarra generalizara. Cris tentava acalmá-los, secundado por Leo e o segurança. Peter limitou-se a cruzar os braços e aguardar o término da manifestação.&lt;br /&gt;- Não disse que acobertaram o roubo - prosseguiu, alguns minutos depois. – Até porque, no sentido que imaginamos, o roubo nunca aconteceu.&lt;br /&gt;- Peter, a coisa está meio confusa, amigo...&lt;br /&gt;- Vai clarear, Cris... Prometo. Milagres ocorrem.&lt;br /&gt;- Espero.&lt;br /&gt;- A caixa com o anel de pérola permaneceu o tempo todo no bolso estreito e fundo do casacão do senhor Pierre Bartholomée.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não entende que eu teria notado isso, Peter? – contemporizou o advogado. – O primeiro gesto que se faz após perceber um roubo é verificar o conteúdo do bolso.&lt;br /&gt;- Ninguém mexeu no seu bolso, senhor Bartholomée... Esperem! Antes do novo ataque, vamos fazer um trato? Explico tudo e depois me processam, OK?&lt;br /&gt;A exaltação caminhava de mãos dadas com a curiosidade e Peter conseguiu a trégua provisória solicitada.&lt;br /&gt;- Continuando... Nada foi retirado do bolso do senhor Bartholomée, sequer a carteira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ai, Peter! – interrompeu Cris. – A carteira foi logo encontrada no terreno baldio. O que diz não tem sentido!&lt;br /&gt;- Esta parte é pura verdade. Mas não foi surrupiada dele. Chegou até lá tendo sido entregue de antemão ao gatuno, espontâneamente.&lt;br /&gt;- E por que ele daria a carteira ao ladrão?&lt;br /&gt;- Porque o esquema foi todo arquitetado pelo senhor Bartholomée. O batedor não passava de um cúmplice na tramóia.&lt;br /&gt;Pierre Bartholomée encarou Peter Schmoll duramente.&lt;br /&gt;- Não sabe com quem trata, jovem. Várias testemunhas escutaram tal descalabro. Terá de provar isso cabalmente ou assistir seu mundinho desmoronar, seu cretino.&lt;br /&gt;- Aceito o ônus da prova, senhor Bartholomée... Há algum tempo se encontra totalmente falido, quebrado. Como dilapidou sua fortuna, sequer imagino. Todavia se algum fuçador, ou mesmo através de medida judicial, quebrar seu sigilo bancário encontrará sua conta no vermelho. Toda aquela conversa que não usa Internet em transações ou evita sair com cartões de crédito e talão de cheques disfarça uma explicação convencional: eles estão bloqueados por falta de fundos, estouraram os limites há tempos. Somente suas relações, como me recordou agora, ainda resguardam sua delicada situação financeira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Senhor Schmoll – interrompeu o gerente. – Como assim? Amanhã ele seria obrigado a realizar uma polpuda transferência bancária na agência, quitando o anel de pérola.&lt;br /&gt;- Por que faria, senhor Goldstein? Ele sabia que a jóia seria “roubada” hoje. O que se seguiria seria uma longuíssima batalha judicial pela responsabilidade do prejuízo.&lt;br /&gt;- E o que ele ganharia com isso? – insistiu.&lt;br /&gt;- Não sei se ganharia. Porém certamente não perderia.&lt;br /&gt;- Ora...&lt;br /&gt;- Raciocinem comigo... Ele desvia o anel através de uma simulação. Começa um intrincado jogo de empurra sobre quem deverá arcar com o prejuízo. A vítima óbvia acaba sendo a seguradora. Em segundo lugar, seria a Maison Léclair. E por último ele.&lt;br /&gt;- Sim – contestou Cris. – Mas se a justiça decidisse que fosse obrigado a pagar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Aí que está! Ele não perderia em hipótese alguma! Venderia o anel no mercado negro e ressarciria o estabelecimento. A Maison Léclair seria indenizada com a rápida negociação de seu próprio patrimônio. Genial, na verdade! E aqui entre nós... Com sua influência no sistema judiciário, conforme me ameaçou, acumulando amigos entre juízes e desembargadores, acreditam que não venceria nos tribunais?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todos olharam na direção de Pierre Bartholomée que, de mãos dadas com a esposa, não demonstrava o menor constrangimento.&lt;br /&gt;- E quais os detalhes do meu plano diabólico, Peter? Precisará deles na corte.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tenho todos esclarecidos, senhor. Antes de se deslocar à joalheria, entregou sua carteira ao cúmplice. Ele não necessitará de nenhuma habilidade especial na encenação. Aguardará de tocaia atrás do poste. Deve se tratar de um sujeito esguio, fácil de permanecer camuflado. Depois, no instante em questão, fingirá que esticou sua mão para limpar um figurão. Fará simplesmente uma mímica, uma performance, autenticada por seus gritos desesperados quando passar correndo, dando veracidade ao roubo. O fato de ser num domingo facilitaria tudo: ausência de movimento e de transeuntes inconvenientes. O pormenor do casacão foi brilhante. O bolso é tão profundo, o tecido tão grosso, que ninguém percebe se algo está ou não em seu interior. Coloque agora mesmo um cinzeiro dentro e não se constatará uma alteração no volume. O tempo todo não trazia a carteira e manteve o anel consigo. Sabia que jamais seria revistado pelo segurança de plantão. É Pierre Bartholomée, afinal...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Embora sem apresentar ainda uma única comprovação definitiva, o raciocínio de Peter começava a fazer sentido aos demais.&lt;br /&gt;- Houve um lance fortuito, bafejado pela sorte. Quando em meio à perseguição inesperada, por afobação e pânico, o cúmplice se livrou do que carregava, que era unicamente a carteira. Isso embaralhou toda a investigação e auxiliou involuntariamente ao estratagema. Gastamos um tempo enorme e precioso procurando algo onde não se encontrava, embora a ilusão de ótica confirmasse o contrário. Mas felizmente, como disse, as pessoas comuns transpiram no calor...&lt;br /&gt;- Sensacional, Peter! – aplaudiu Bartholomée, irônicamente. – Uma perfeita conjectura de fatos circunstanciais. A Justiça não costuma se deixar seduzir por anedotas bem contadas. Falta materialidade na sua engenhosa dissertação. Precisaria me flagrar na posse do anel para comprovar tamanha ficção. Quer revistar-me? Fez isso mais cedo, inclusive, ao examinar o grau de dificuldade enfrentado pelo ladrão. O próprio Chefe Cris também, por questão de rotina. Não me opus. E nada suspeito encontraram em meu poder.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Acredito que a jóia não esteja escondida no senhor.&lt;br /&gt;- Então seu caso naufraga antes de zarpar... Nos veremos na corte, &lt;em&gt;detetive&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;- Um momento, senhor Bartholomée. Faz alguma restrição numa última revista?&lt;br /&gt;- De jeito nenhum. Poderá dizer qualquer coisa, menos que neguei colaboração.&lt;br /&gt;Ele se aproximou de Peter e ergueu os braços, facilitando o acesso aos bolsos. No entanto, para surpresa geral, o famoso detetive o contornou e se aproximou da senhora Bartholomée.&lt;br /&gt;- Peço permissão de revistá-la, Madame.&lt;br /&gt;- Mas que ultraje! – protestou em uníssono o ilustre casal.&lt;br /&gt;- Não desejam mais colaborar? Posso embasar melhor minha petição, meu honrado adversário. Após o incidente, a senhora Bartholomée, traumatizada, teve um violento aumento de pressão arterial, seguido de uma terrível enxaqueca. Normal, às vezes sofro disso também. O dedicado marido, que escapara da revista do segurança sendo quem é, e ainda não passara pela rotineira de Cris, acompanha a esposa na sala ao lado, para aplicar-lhe um estranho cataplasma.&lt;br /&gt;- Não seja ridículo, meu jovem – enfim pronunciou-se ela. – Quanto disparate!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Quem sofre de enxaqueca ou cefaléia, mesmo de uma corriqueira dor de cabeça, não suporta a menor pressão em torno das têmporas e da fronte. Porque isso prende a circulação, o que aumenta muito o desconforto. E nosso carinhoso cônjuge caprichou ao prender essa compressa gelada. Nunca vi algo tão apertado e justo assim, me ofereci para afrouxar, inclusive.&lt;br /&gt;- Gosto desse modo, rapaz. Está querendo enxergar coisas onde não há – fuzilou a senhora Bartholomée, inteiramente despida da doçura que Peter conhecera.&lt;br /&gt;- Não creio nisso. Ou gente incomum tem mesmo reações orgânicas diferentes? A lógica continua simples: isolados, preparando um autêntico torniquete, Monsieur escondeu o anel na nuca de Madame, protegendo-o com a bandagem firme da compressa. A caixa original misturaram com outras vazias e idênticas, estocadas numa prateleira do aposento. Dispunham de tempo mais do que suficiente. A agitação se concentrava na outra parte do estabelecimento, onde o gerente, seu assistente e o segurança tomavam as providências emergenciais a respeito do desaparecimento da jóia. São cúmplices em tudo, no amor e no crime.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes que começassem as novas ameaças, Peter, habilidosamente, posicionou-se e puxou num irresistível impulso o nó posterior do cataplasma, que desmanchou-se e fez rolar pela grossa braçadeira da poltrona o deslumbrante brilho dourado do anel de pérola South Sea, flanqueado por seus puríssimos e minúsculos diamantes.&lt;br /&gt;Peter tratou de juntá-lo e, num gesto solene, aproximou-se do trêmulo David Goldstein, que tinha os olhos marejados e denotava ter remoçado vinte anos.&lt;br /&gt;- Aqui está, senhor. A garantia do seu emprego e o fim precoce da guerra jurídica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Obrigado, Peter! - desmanchou-se o gerente, demonstrando nessa gratidão uma amizade duradoura.&lt;br /&gt;Voltando-se à lívida e agora claudicante senhora Bartholomée, Peter Schmoll reconheceu:&lt;br /&gt;- Que belíssimo desempenho, Madame. Lamento não tê-la assistido nos palcos, no auge da sua carreira e energia. Como disse, o vírus da representação nunca se perde. Quanta doçura, quanto medo, quanta nostalgia amorosa ao cantarolar “&lt;em&gt;o anel que tu me destes&lt;/em&gt;”. Tornou o caso mais interessante, senhora, porém não infalível.&lt;br /&gt;Cris estava, ao contrário de Leo, totalmente estupefato com o inusitado desenrolar dos acontecimentos. Sem falar no destrinchar perfeito conduzido por Peter. Disposto a não deixar a peteca cair ou dar o braço a torcer, desafiou o colega:&lt;br /&gt;- Por que não arremata a obra e me indica onde encontrar o falso ladrão?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Procure pelo motorista do casal. Aquele que por bondade do patrão teve a folga dominical restaurada. Utilizar o táxi não foi casualidade. E vai constatar que as tais atividades esportivas às quais o cara se dedica são corridas de média distância. Velocidade e resistência equilibradas. Um tipo atlético, em forma, capaz de disparar e sumir de vista. Outro toque de mestre desse esquema, não há dúvida. Tipicamente feminino... – encerrou, olhando de soslaio na direção do Chefe de Segurança, que percebeu a menção e piscou-lhe de maneira imperceptível aos demais.&lt;br /&gt;A linha, a fleugma e o orgulho do casal Bartholomée desaparecera. Sua expressão disparava os maiores impropérios mudos contra Peter Schmoll, que habilmente desbaratara seu plano perfeito. Cris tratou de convocar os dois policiais que aguardavam na sua viatura estacionada defronte à Maison, no ponto exato onde horas antes se iniciara o fracassado embuste. Deu intruções particulares aos dois e logo o distinto casal Bartholomée saiu conduzido à Delegacia Central, ostentando ambos uma jóia sem a marca de qualidade de Léclair: um par de algemas meio enferrujado.&lt;br /&gt;- Inacreditável – murmurou o gerente. – Os modelares Bartholomée se tornando ladrões.&lt;br /&gt;- A decadência definitiva das linhagens – abriu a boca, pela primeira vez, o assistente.&lt;br /&gt;- A imprensa terá um prato cheio – sentenciou Leo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ele alegará sem rodeios que precisava de dinheiro? Ou adotará o sentimentalismo, alegando que a vontade de presentear a esposa o cegou? - ponderou Cris.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tal justificativa desmorona inteiramente na participação da mulher no planejamento. Entretanto, a velha raposa jurídica se pronunciará de acordo com o tribunal que o julgar - explicou Peter.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Notável! - exclamou Cris.&lt;br /&gt;- O aspecto notável, na verdade, é que mesmo em casos que não participo meu índice de sucesso permanece nos cem por cento – congratulou-se Peter. - Mereço dormir como um anjo.&lt;br /&gt;Pela reação imediata de todos, o casal Bartholomée teve, ao menos, uma pequena vingança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;FINAL&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-2971852947255577938?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/2971852947255577938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=2971852947255577938' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2971852947255577938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2971852947255577938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/o-anel-que-tu-me-destes-final.html' title='O Anel Que Tu Me Destes (4a. Parte)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-3585650182010191438</id><published>2008-03-27T22:36:00.000-07:00</published><updated>2009-05-22T10:35:10.301-07:00</updated><title type='text'>O Anel Que Tu Me Destes (3a. Parte)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim que se acomodou entre Cris e Leo, Peter, muito irritado, disparou:&lt;br /&gt;- Afinal, por que não desenterraram este bendito anel ainda?&lt;br /&gt;- Não começa com as tuas recriminações! – reagiu Cris. – Estamos seguindo todos os procedimentos básicos de busca. Os homens estão dando duro nesse calor infernal. Pedi até a ajuda de um grupo de garis que removem o lixo revirado, tornando limpa a área. Mesmo esse material passa por uma segunda e terceira triagens, eliminando qualquer risco de perdemos a porcaria da peça. O que mais se pode fazer, &lt;em&gt;sua santidade&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;- Desde que foi promovido à Chefe de Investigações, Cris, tornou-se um mero burocrata. E pensar que ajudei nessa sua escalada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Você é um imbecil, Peter! Vai lá, grita “apareça” e leve a jóia de volta... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Agora tenho de fazer o trabalho alheio? Só faltava essa...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Leo nem se preocupou em apaziguar a discussão. Volta e meia os dois travavam aqueles diálogos ríspidos e contundentes porém nunca se desentenderam seriamente. No entanto a busca começava a ficar maçante e se configurava inútil. Estavam no meio da tarde e a esperança de solução arrastava-se sob o sol a pino do horário de verão.&lt;br /&gt;- O que me exaspera – retomou Peter, mais calmo – é que não existe descrição do ladrão. A caixa da jóia foi jogada nesse terreno e não se consegue encontrá-la. O caso está todo amarrado por circunstâncias banais, laços que escondem as pontas.&lt;br /&gt;- As digitais também nada produziram – concordou Cris. – O excesso de suor nas mãos do larápio as destruíram, tornaram a identificação impossível. A única saída é o pessoal reverter a maré da sorte e topar logo com a jóia.&lt;br /&gt;- Para piorar, temos de esperar na Birosca do Lucas...&lt;br /&gt;Cris e Leo não conteram o riso.&lt;br /&gt;- Quer uma bebida quente? – provocou o primeiro.&lt;br /&gt;- Ou uma porção de pesticos fria? – atiçou o segundo.&lt;br /&gt;- Espero apenas não estar ocupando a cadeira do padreco mala ou do velho gagá...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto gargalhavam voltaram os olhos para o grupo de policiais e garis que sofriam vasculhando o terreno baldio. Os muros laterais eram compartilhados nas construções contíguas. O do fundo tinha uma altura considerável. Ninguém teria chance de vencê-la sem ajuda ou escada. O que não impediria de ser facilmente surpreendido pelos policiais da perseguição, que permaneceram virados para o interior do terreno até a chegada dos reforços. O muro frontal, por onde o ladrão atirara os objetos, era baixo, não ultrapassava um metro e meio. A conclusão se mostrava forçosa: o anel de pérola &lt;em&gt;South Sea&lt;/em&gt; estava ali em algum lugar. Nenhum deles externou tais pensamentos, porém estava óbvio pelas suas fisionomias que os três refletiam de forma similar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Uma coisa me intriga, pessoal. E não consigo tirá-la da cabeça...&lt;br /&gt;- Do que se trata, Peter?&lt;br /&gt;- Desse enigmático e audacioso ladrão, cuja captura não interessa aos ilustres envolvidos no caso.&lt;br /&gt;- Ele podia ter ficado em casa dormindo – comentou Leo. – Domingo é dia sagrado, de descanso. Pouparia tamanha confusão.&lt;br /&gt;- Nem me fale em dormir... Que noite, meu Deus. Que madrugada...&lt;br /&gt;- Você teima, nem insisto mais. Leo também deve ter dito milhares de vezes. Não procura ajuda médica. Um dia vai deitar e não acorda. Um triste epílogo na sua clássica biografia.&lt;br /&gt;A disposição de discutir aquilo era nenhuma em Peter. Seus traços fisionômicos conservavam um autocontrole admirável. No entanto, sua irritabilidade no timbre da voz sinalizava a verdadeira condição, sendo um indício familiar aos que desfrutavam da intimidade. Os amigos observaram a estafa e respeitaram sua frágil condição. Até porque sabiam que seus extraordinários mecanismos de detecção funcionavam mesmo à baixa velocidade, podendo eclodir a qualquer instante, não cabendo atrapalhá-la com altercações inadequadas, que o exaurissem mais no momento.&lt;br /&gt;- Mas o que tem o ladrão? – indagou Cris.&lt;br /&gt;- O cara é profissional. Dos bons. Gente assim não circula a esmo. Apareceu aqui quando tudo normalmente não funciona. Estava no lugar certo na hora certa. E deu um bote preciso.&lt;br /&gt;- Desconfia que recebeu uma dica?&lt;br /&gt;- Uma possibilidade, claro. O estranho é que costumo captar isso no ar. Não detectei traços disso no gerente, no seu assistente ou no segurança. Goldstein não passa de um tipo afetado e bajulador. O &lt;em&gt;sem nome&lt;/em&gt; apresenta uma insipidez ímpar. O fardado tem percepção, fica na dele e cuida das suas responsabilidades. Porém não descanso desde ontem. As minhas pobres faculdades podem estar bastante comprometidas, não seria inédito em circunstâncias desfavoráveis. Se ao menos tivesse repousado, a função transcorreria melhor...&lt;br /&gt;O atento parceiro Leo sacudiu o desânimo adicionando um novo ingrediente ao caldeirão de poções Schmoll.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Peter, não pergunte como consegui... Olhe bem essas cópias de movimentação bancária... Não acha interessante? Comentei sobre isso nas mensagens de texto. Agora as tem discriminadas... Lembre que se precisar dispor dessas informações não cite números, apenas encaixe indiretamente o fato.&lt;br /&gt;- Quanto a mim, não sei de nada, não vi nada... – comentou Cris. – Os métodos que burlam a legalidade fogem à minha alçada.&lt;br /&gt;- É curioso mesmo, Leo. Mas a princípio isso não prova nada. Podem haver outras contas. Estou propenso a classificar este caso como transcendendo quaisquer valores e referências materiais. Quase algo sobrenatural. O marginal parece invisível, ao menos sem rosto. O anel desaparece por encanto ou se esconde de nós. Tudo conspira contra a realidade, como se fosse obra de um habilidoso mágico e...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peter estancou no meio do seu raciocínio. Ergueu-se ligeiramente, trespassou o infinito com os olhos arregalados e brilhantes, e quando voltou à posição normal um sorriso maroto lhe iluminava o rosto. Alguns conheciam aquilo como bom augúrio aos inocentes e motivo de preocupação aos culpados. A luz começava a se fazer.&lt;br /&gt;- Amigos... O que necessita um mágico para realizar seus truques?&lt;br /&gt;- Ah, Peter... Adora esses enigmas... Sei lá, precisa de agilidade nas mãos?&lt;br /&gt;- Exato, Cris. Merece a promoção à Chefe de Investigações...&lt;br /&gt;- Obrigado, amigo. A justiça tarda mas não falha. E &lt;em&gt;no que&lt;/em&gt; a bendita velocidade de um mágico &lt;em&gt;nos&lt;/em&gt; &lt;em&gt;esclarece&lt;/em&gt; afinal?&lt;br /&gt;- Calma... Antes de perguntar isso, responda &lt;em&gt;no que&lt;/em&gt; a velocidade de um mágico &lt;em&gt;ajuda o truque&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;- Ora – interrompeu Leo. – Em tudo. Ele conta com o fenômeno da ilusão de ótica. O famoso bordão “as mãos são mais rápidas do que os olhos”. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ponto também, Leo! Merece um aumento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os dois o encaravam sem pescar o xis definitivo da questão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Se vocês levantam cedo, abrem a janela e o asfalto está molhado, deduzem que choveu. Um exercício absoluto de lógica. Se abrem a gaveta onde guardam &lt;em&gt;sempre&lt;/em&gt; a chave do carro e não a encontram, revirando-a várias vezes inutilmente, mesmo que lá fosse seu lugar, o que concluem?&lt;br /&gt;A despeito da inteligência indiscutível que possuíam, Leo e Cris não alcançavam a perspectiva proposta por Peter.&lt;br /&gt;- Está na cara, companheiros. As chaves não estão na gaveta! O anel não está naquele terreno baldio!&lt;br /&gt;- Como não, Peter? – fizeram coro ambos.&lt;br /&gt;O detetive balançou a cabeça vagarosamente, firmando ainda mais sua dedução.&lt;br /&gt;- Enlouqueceu? Quer complicar mais o caso? Testemunhas viram ele sendo atirado sobre o muro. De dois ângulos diversos. Os policiais que o perseguiam do outro lado da calçada e a dupla de fregueses aqui da birosca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- E o que aliás viram as quatro grandes testemunhas, Cris? Nada de concreto! Apenas que o fugitivo jogou fora aquilo que carregava. Não puderam discernir o conteúdo à distância, pela velocidade do movimento e do arremesso. Foram vítimas de uma ilusão de ótica, quase de uma miragem, à mercê dessa temperatura. Vislumbraram apenas uma forma qualquer, um volume deixando as mãos do ladrão. Duvido que algum deles sequer soubesse dizer de que objeto se tratava. Todos partimos do princípio que eram a carteira e a caixa da jóia pelos depoimentos na Maison Léclair.&lt;br /&gt;- Faz sentido... Então a coisa na verdade piorou! – admitiu Cris, desanimado. – Isso significa que a jóia continua na posse de um ladrão misterioso, desprovido de uma descrição mínima ou da identificação pelas digitais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peter teve de concordar com a conclusão pessimista do colega.&lt;br /&gt;- O pior delito – comentou – é o de ocasião. Aquele que não foi premeditado. Nos coloca no duvidoso patamar da casualidade e das pistas fortuitas. O gatuno jogou uma cartada arriscada e venceu a parada. Tudo já indicava se tratar de alguém experiente e habilidoso. Para nosso azar ainda soube agir com extrema frieza num momento de aflição. As circunstâncias o favoreceram em demasia. Entretanto, reconheçamos que soube muito bem se utilizar delas.&lt;br /&gt;Enquanto especulavam sobre possíveis alternativas para descobrir o notável criminoso, um dos policiais saiu do terreno baldio, suando em bicas, com o uniforme totalmente empapado, e se aproximou da mesa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O que deseja, sargento?&lt;br /&gt;- Chefe... Tenho um pedido em nome do grupo. Podemos prosseguir a busca sem camisa? O calor está de matar camelo. Fica na moita, como sempre...&lt;br /&gt;- Não se preocupe, sargento. Mande a turma recolher e dispersar. Não há porquê prosseguir. A missão aqui está encerrada.&lt;br /&gt;- Jura, Chefe? Podemos sair desse inferno?&lt;br /&gt;- Se demorarem cinco minutos quem sabe mudo de idéia? - dardejou Cris, com azedume.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A alegria no seu rosto seria contagiante se as circunstâncias fossem outras. Os gritos de júbilo logo ecoaram no terreno baldio, enquanto os policiais arrumavam o material utilizado e se apressavam em partir. Uma por uma, as viaturas deixaram para trás a Birosca do Lucas, de onde os garis já haviam sumido rapidamente com os caminhões de entulho.&lt;br /&gt;- Ao menos a imprensa não farejou esta matéria, pessoal. Aturar jornalistas fuçando e cobrando tornaria tudo pior. Os superiores é que vão cair sobre mim...&lt;br /&gt;- São os encargos da competência, Cris – ironizou Peter. – Se você ficasse na ronda dormiria tranqüilo à noite. Mas se transformou no investigador do ano...&lt;br /&gt;- Culpa sua, gênio! Não foi o que disse antes?&lt;br /&gt;- Ora, Chefe... Eu e Leo lhe daremos o máximo apoio moral. Vamos acompanhá-lo à Maison Léclair, para relatar o tremendo fracasso das investigações e reconhecer que o anel está à deriva no espaço. Os ilustres figurões aguardam notícias suas. Devem estar cansados de esperar naquela mordomia. Aos seus superiores entretanto não teremos acesso. Aí terá de encarar sozinho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Muito obrigado! Estão me dando um apoio fenomenal...&lt;br /&gt;- Interessante – murmurou Peter.&lt;br /&gt;- O que?&lt;br /&gt;- O sargento veio pedir em nome de todos para tirarem a camisa. Não aguentaram o calor.&lt;br /&gt;- Puxa, um acontecimento mesmo deveras marcante, Peter. Uma surpresa extraordinária, realmente. Na certa deviam torcer que nevasse. Aguardar por um repentino milagre... Quem sabe alguns flocos não congelassem também nosso foragido e o transformassem num picolé entregue a domicílio?&lt;br /&gt;- Quem sabe? Devia acreditar mais em milagres, Cris. Eles acontecem.&lt;br /&gt;- Hora então de rogar pelo seu, Peter.&lt;br /&gt;- Por que precisaria disso?&lt;br /&gt;- Ora, o gênio infalível, o investigador que ostenta cem por cento de eficiência acaba de fracassar... Qual o gosto inédito do insucesso? Será que enfim o transformará num humilde ser humano?&lt;br /&gt;- Cometeu um equívoco, Cris. Se esqueceu que na verdade não fui contratado por ninguém? Nenhuma das partes? Nem a seguradora? Estive no caso a seu pedido, extra-oficialmente, como de costume. Acabou sendo uma vantagem não ter os malditos jornalistas zanzando e revelando minha presença. Isto sim foi um belo milagre. Logo, não posso registrar no currículo algo do qual não participei. E se amanhã me procurarem dou uma desculpa esfarrapada e declino do caso. Por essas e outras acabou valendo me chamar. Direi meu “não” na hora certa. Desde quando foi segredo que apenas os grandes desafios me seduzem? Capturar um meliante é assunto policial dos mais prosaicos...&lt;br /&gt;- O casal Bartholomée poderá mencionar sua presença na Maison. Assim como o gerente e seu assistente. Ou até o segurança.&lt;br /&gt;- Não creio. O encarregado da segurança é dos meus. Quanto aos nomes ilustres, terão mais com que se preocupar. Você mesmo disse que batalharão no tribunal.&lt;br /&gt;- O que mais me irrita, Peter, é que ao final sua primeira sugestão será implementada: os acalguetes em alerta, na tocaia do ladrão, quando ele ameaçar queimar a mercadoria.&lt;br /&gt;- Ora, Chefe... Não se atinge cem por cento à toa! – gargalhou, dando um tapinha nas costas de Leo, que apenas sacudiu os ombros consolando o abalado Cris. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;(CONTINUA)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3585650182010191438?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3585650182010191438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3585650182010191438' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3585650182010191438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3585650182010191438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/o-anel-que-tu-me-destes-3a-parte.html' title='O Anel Que Tu Me Destes (3a. 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Parte)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes de partir, Peter soube através de Cris que, para escaparem da publicidade e melhor colaborarem com o início das investigações, classificadas de sigilosas por ordens superiores, todos os envolvidos no inesperado episódio, incluindo o casal Bartholomée, haviam permanecido nas instalações da Maison Léclair. Isso lhe faria ganhar um tempo precioso. E poderia retardar um pouco sua chegada, que não pareceria tão repentina. Se eles tivessem cabeça para isso, deduziriam que fora contactado pela seguradora ou pelo influente dono da tradicional joalheria, a despeito da ignorância de seu gerente, pois era sabido que não prestava contas de seus atos a ninguém.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesse ínterim, localizaria seu ajudante, o maior fuçador de informações da cidade. Mesmo num domingo, graças ao seu completo e informatizado arquivo, além da memória incomum, Leo conseguiria traçar-lhe um perfil mínimo, atual e básico da situação, personalidade e preferências das ilustres vítimas. Sobre os demais, Peter lançaria mão de sua larga experiência no trato com tipos de qualquer posição social.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Esqueça a boa vida, Leo... Preciso de informações urgentes... Me mande um apanhado daqueles que só você consegue... Sim, envie por mensagem de texto... Esprema em tópicos de uma palavra, de preferência... Anote os nomes...&lt;br /&gt;Leo nem cogitou protestar. Estava habituado às emergências. Eram velhos conhecidos e associados, parceiros que jamais deixavam o outro na mão. Além disso, se por um lado Peter cobrava um absurdo por seus préstimos, sabia também recompensar regiamente todos que lhe auxiliavam. O levantamento não tardaria e seria inteiramente objetivo e confiável.&lt;br /&gt;Peter atravessou lentamente os cinco quarteirões na direção da Maison Léclair. A travessia da pequena ponte asfaltada sobre o canal sempre lhe transmitia uma mudança de ares perceptível. Não era afetação, como imputara Cris, contudo um fato.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Subindo a longa escadaria da joalheria, Peter levava sua fama prévia como cartão de apresentação. Passara há muito a época em que alguém barraria sua entrada onde quer que fosse. Principalmente, se existia um assunto grave e celebridades atingidas, nada mais natural que ele aparecesse para colocar ordem nas coisas. Afinal, se tratava do prodígio “que resolvia qualquer assunto”, do mais prosaico e mundano aos complexos e bizarros. Sua infalibilidade, seu caráter profissional e sigilo total aumentavam seu cartaz diariamente. A publicidade crescente, contudo, incomodava-o não por modéstia, mas por minar o valioso anonimato ao agir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bastou tocar a campainha, identificar-se ao segurança e, em poucos minutos, estava acomodado numa ampla, confortável e refrigerada sala de estar, sortida de bebidas e guloseimas. Em largas e maciças poltronas vizinhas, formando um semi-círculo, Pierre Bartholomée, o conceituado advogado, Davi Goldstein, o gerente da Maison, e seu inexpressivo ajudante, cujo nome Peter mal escutura já esquecera, olhavam-no com admiração, curiosidade e expectativa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sr. Schmoll, não me surpreende sua presença - murmurou Goldstein. - Um caso dessa magnitude necessita urgentemente da sua interferência. Falamos horas com a polícia e duvido que todo esforço tenha serventia.&lt;br /&gt;- Tive o privilégio de atuar em inúmeros processos que contaram com a valiosa colaboração do Sr. Schmoll - reforçou Bartholomée. – Nunca tive a honra de lhe apertar a mão, todavia sua presença é tranquilizadora.&lt;br /&gt;- Obrigado, senhores. Uma pena enfim nos conhecermos nessas circunstâncias. Vamos procurar remediar logo isso e liberá-los para atividades menos desagradáveis. Ah, podem me chamar de Peter, eu prefiro... - completou, enquanto esvaziava avidamente um copo de suco de laranja oferecido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todos sorriram confiantes ante sua cordialidade, inclusive o mirrado auxiliar do Sr. Goldstein que tratou de encher-lhe o copo de suco outra vez. A tática de Peter era surrada porém ignorada pelos três. A simpatia estava léguas distante de ser sua marca registrada, por feridas emocionais que não cabe agora relembrar.&lt;br /&gt;- Sr. Bartholomée, apelo para sua paciência... Pode me relatar o que contou antes aos investigadores ?&lt;br /&gt;- Sem duvida, Sr. Schmoll... Aliás, Peter... Precisava comprar um presente para minha esposa. Hoje é nosso quadragésimo aniversário de casamento. Não me perdoaria se deixasse a data em branco. O lógico seria tratar disso durante a semana. Todavia ausentei-me a trabalho, não tive tempo mesmo para nada. A Maison Léclair foi compreensiva e franqueou-me o estabelecimento no domingo. Tudo caminhava bem até o tiro sair pela culatra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Preparavam-se para entrar no táxi quando tudo aconteceu?&lt;br /&gt;- Sim. Ele surgiu do nada, vindo por trás, enfiando a mão no meu bolso. Quando dei por mim e gritei, já estava quase na esquina. Felizmente vimos dois policiais no seu encalço. Soubemos que para não ser agarrado atirou tudo num terreno baldio. Menos mal... Logo a polícia deverá encontrar o anel. Esta é a razão fundamental de permanecermos aqui. Quer dizer, minha esposa repousa também na sala ao lado. O susto elevou sua pressão, convém aguardar.&lt;br /&gt;- Sinto pela sua senhora. Enfrentar todo esse constrangimento nessa data festiva.&lt;br /&gt;- Graças a Deus ela é uma mulher forte. Mais um pouco e ficará bem. Coloquei uma compressa fria em torno de sua cabeça para aliviar a enxaqueca. Ela reage bem aos tratamentos simples. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Fico feliz em saber disso... Sr. Bartholomée, se importaria em ficar de pé? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O advogado sequer preocupou-se em perguntar o porquê. Obedeceu ao pedido de Peter, embora demonstrasse certa curiosidade.&lt;br /&gt;- O anel e a carteira estavam no bolso direito do seu casaco? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto Bartholomée assentia com a cabeça, Peter esgueirou-se agilmente por trás dele, simulando o ladrão. Colocou naturalmente a mão no bolso do sobretudo e constatou que era bem fundo mas estreito, daqueles que acolhem em segurança qualquer pequeno objeto. Repetiu o gesto de introduzir e retirar a mão, buscando especificar seu grau de dificuldade, apesar de conseguir fazê-lo com facilidade.&lt;br /&gt;- Uma coisa podemos ter certeza... – diagnosticou.&lt;br /&gt;- O que? - perguntou o gerente, impressionado com a reconstituição.&lt;br /&gt;- Nosso homem é um profissional. Não é simples colocar a mão num bolso fundo assim com tamanha presteza e eficiência. Um amador se atrapalharia todo, enrolaria os dedos na borda, seria agarrado no meio da tentativa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Mas ele deu foi muita sorte! – enfureceu-se o gerente. – Atirou no escuro e achou mais do que a carteira do senhor Bartholomée. Encontrou coincidentemente a caixa do anel. Não tinha como saber e conseguiu um bilhete premiado.&lt;br /&gt;- Minha experiência, senhor Goldstein, ensina que a chamada sorte acompanha os competentes, mesmo quando a causa não é nobre. Lidamos com um experiente surrupiador, não apenas com um reles punguista. Deve ser fichado, fácil de identificar.&lt;br /&gt;- Sejamos francos, senhor Schmoll. Nem eu, o senhor Bartholomée, o proprietário ou a seguradora – o gerente enfatizou esta última palavra, como que insinuando que Peter se encontrava ali a serviço dela – estamos interessados no tal sujeito. A polícia que trate disso e faça sua caçada. Queremos recuperar o anel e evitar atribulações futuras. Ao que parece isso deve ocorrer a qualquer instante, pois este se encontra num terreno baldio próximo. Quando trouxerem a boa notícia iremos todos embora para nossas casas e o assunto, por nós, estará encerrado.&lt;br /&gt;Davi Goldstein suava frio naquele ambiente climatizado. A espada estava sobre seu pescoço, apesar de, a rigor, ser uma vítima indireta dos fatos. No entanto seu patrão sempre buscava uma cabeça para decepar e a dele estava à beira da guilhotina.&lt;br /&gt;- Então nem vou perguntar se conseguem descrevê-lo... Seu interesse na ordem das coisas é comovente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os três entreolharam-se bastante surpresos. Começavam a lidar com o verdadeiro Peter Schmoll, o do nome completo, sendo difícil perceber se estava sendo irônico ou conclusivo. Se tivessem chance de conhecê-lo melhor descobririam que ambas as facetas não se dissociavam nele.&lt;br /&gt;Ignorando o assistente de Goldstein no seu interrogatório, Peter pediu licença ao trio e se dirigiu ao segurança postado na ante-sala, deixando-os agora aliviados por sua ausência. Não era incomum causar essa sensação, que passava do fascínio ao desconforto num intervalo curto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tanta confusão num domingo abafado, hein?&lt;br /&gt;- Foi inesperado, senhor Schmoll. Nunca passamos por isso antes.&lt;br /&gt;- Apenas Peter... Trabalha há muitos anos aqui?&lt;br /&gt;- Sim, sou o Chefe da Segurança. Quase doze anos de casa. Certas horas o posto é uma desvantagem. Por isso fui designado para vir acompanhar a visita. Quando abrimos excepcionalmente, sempre sobra para mim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Entendo. Conhece então o senhor Bartholomée há tempos, certo?&lt;br /&gt;- É nosso velho freguês. Cliente bom e fiel. Um cavaleiro educado e distinto. Comprou muito aqui, em especial nas épocas natalinas. Andou afastado ultimamente mas eles acabam retornando com seu dinheiro. Quando a data procede, não há estabelecimento que supere a Maison Léclair.&lt;br /&gt;- Por que não os escoltou ao carro?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ninguém achou que fosse necessário. Bastava descer e entrar no táxi, que aguardava de porta aberta. Olhei antes pela janela da frente e não havia viva alma na avenida. O gatuno estava de tocaia, agora sabemos. Talvez encoberto com a ajuda involuntária do veículo, atrás do poste de iluminação. Além disso, o senhor Bartholomée, ou sua esposa, tinha pressa. E eu precisava fechar tudo, guardar certos estojos valiosíssimos no cofre forte, norma número um de segurança interna. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ele não costuma se deslocar nos seus carros particulares? Ao que consta, Bartholomée possui uma frota deles, de várias marcas e modelos, com chofer à disposição. Logo hoje veio de táxi?&lt;br /&gt;- Ah, o senhor Goldstein também ficou curioso. Eles têm alguma intimidade e indagou sobre isso. Parece que madame Bartholomée vinha exigindo horas extras de seu motorista e o marido não quis sacrificar-lhe o domingo. Havia prometido deixá-lo livre para não perder suas competições esportivas, seja lá quais forem...&lt;br /&gt;Peter riu com o segurança, um tipo simpático e sultimente mordaz no seu jeito contido. Havia captado uma pequena ironia no fundo daquelas pretensas horas suplementares que “madame exigia” e nas desconhecidas “práticas atléticas”, embora tal morresse no mesmo instante.&lt;br /&gt;- Queria trabalhar para alguém assim, não é? Que respeitasse os seus domingos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele concordou sem pestanejar, despedindo-se com um largo sorriso. Peter retornou à sala de estar e perguntou ao ainda lívido senhor Bartholomée:&lt;br /&gt;- Poderia trocar uma palavrinha com sua senhora? Prometo não perturbá-la... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ela descansava próxima numa espécie de saleta de reposição, cujas paredes cobertas de extensas prateleiras empilhavam uma infinidade de caixas e estojos utilizados na Maison Léclair, na proteção e venda de suas peças. Um convidativo sofá forrado de veludo providenciava o descanso necessário ao restabelecimento da frágil mulher.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma década e pouco mais jovem que seu septuagenário marido, a senhora Bartholomée era uma sessentona vistosa, bem cuidada, exibindo uma beleza exótica como a famosa jóia que ganharia. Peter lembrava de haver lido que na época a união provocara um certo escândalo. O advogado em ascensão, de tradicional linhagem, se unindo a uma fulgurante estrela de teatro de variedades não fora bem digerido pelas mentes conservadoras. Nada difícil conjecturar o que atraíra Pierre Bartholomée nela quarenta anos atrás. A verdade é que, apesar dos prognósticos pessimistas, o casamento durara este tempo todo, destilando verdadeiro amor e harmonia, sem que se soubesse de percalços ou tropeços dignos de nota. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O senhor é Peter Schmoll, o reconheço das fotos nos jornais. Foi contratado por conhecidos meus no passado, falaram maravilhas do seu trabalho.&lt;br /&gt;- Sinto que passe por isso numa data tão importante, senhora.&lt;br /&gt;- Não será suficiente para abalar nossa felicidade, meu jovem. Mas minha pressão é delicada e sucumbiu ao susto. Estou melhorando da enxaqueca. O cataplasma gelado que meu marido carinhosamente preparou opera maravilhas em mim.&lt;br /&gt;- Se me permite, senhora... – Peter inclinou-se respeitosamente sobre o divã onde ela repousava e ajeitou melhor a larga compressa na testa. – Ele aplicou-a bem firme... Não a incomoda? Prefere que afrouxe um pouco?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Estou acostumada, senhor Schmoll. Não se preocupe. Prefiro assim. A idade nos prega tais peças. Felizmente tenho quem cuide de mim.&lt;br /&gt;Peter não se incomodou que ela o chamasse de senhor Schmoll. Sabia conceder direitos aos que padeciam e ele próprio era vítima de eventuais dores de cabeça.&lt;br /&gt;- Não há descrição física do ladrão, senhora. Mulheres costumam ser mais observadoras, capturar os detalhes. Qualquer coisa me serve: altura, corpulência, cor do cabelo, roupas... Os próprios policiais se concentraram na perseguição e não souberam apontar uma única característica. É como se a figura não existisse. Pode me dizer algo? Para onde olhava no momento do ataque? Viu o sujeito, por acaso? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ela ficou visivelmente encabulada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sinto decepcioná-lo, senhor Schmoll. Achará ridículo o que eu fazia no momento do golpe. Estava cantarolando, não em voz alta, mas comigo mesma.&lt;br /&gt;- Cantarolando? – Peter cada vez mais absorvia as surpresas da vida.&lt;br /&gt;- Sim. Um velho hábito dos meus tempos de artista teatral. Um vírus que nunca se perde, o dos palcos. Entenda que eu estava muitíssimo feliz. Pela data, pelo presente, por compartilhar tudo com meu marido. Assim, tomada de alegria, cantarolava aquele velho trecho de cantiga: “&lt;em&gt;o anel&lt;/em&gt; &lt;em&gt;que tu me destes&lt;/em&gt;...”. Lógico que minha versão da adorável “Ciranda, Cirandinha” tem adaptações. O anel não é de vidro, nem o amor se acabou...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ela cerrou os olhos emocionada e virou-se para o lado soluçando baixo. Peter compreendeu que a entrevista acabara e não havia porque insistir. Havia um lado patético em tudo aquilo, porém acima de qualquer sarcasmo. O tempo urgia, a tarde esvaía rapidamente e nenhum sinal do que todos queriam: o valiosíssimo anel de pérola &lt;em&gt;South Sea&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;- Peter – implorou o gerente. – São quase 16 horas. Como não conseguiram ainda achar o anel? Não sabem vasculhar um simples terreno? Quanta incompetência!&lt;br /&gt;- Não sou responsável pela busca, senhor Goldstein. Porém tenho contatos na força policial. Estou indo lá agora acompanhar de perto os trabalhos. Realmente é muito estranha essa demora...&lt;br /&gt;Ao se afastar da Maison Léclair, deixando um bando de lamuriosos atrás de si, Peter verificou seu celular. As mensagens de texto prometidas por Leo se encontravam disponíveis. Constatou que as informações sintetizadas confirmavam tudo que percebera deles, no aspecto comportamental. Nada acima do superficial ou óbvio. Gente famosa era extremamente desinteressante por um lado. Por outro, a situação financeira individual revelara certas surpresas, embora nada que fosse decisivo ao mistério do sumiço da jóia.&lt;br /&gt;Uma última mensagem de Leo dizia que se encontrava no local das buscas, ao lado de Cris, no Bar do Lucas, bem defronte ao terreno baldio, aguardando com informações adicionais.&lt;br /&gt;Peter suspirou fundo. Hora fatídica de cruzar novamente a ponte sobre o canal, passando da Maison à Birosca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;(CONTINUA)&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3634096183970056809?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3634096183970056809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3634096183970056809' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3634096183970056809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3634096183970056809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/o-anel-que-tu-me-destes-2a-parte_27.html' title='O Anel Que Tu Me Destes (2a. Parte)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-2878515091094757814</id><published>2008-03-26T19:53:00.001-07:00</published><updated>2009-01-09T01:51:03.237-08:00</updated><title type='text'>O Beijo de Maira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dizem que os anjos encarregados de uma curta missão terrena chegam como bebês ou crianças que partem deste mundo cedo. Francamente não sei o que é verdade nessas horas. O quanto a poesia que embasa uma tristeza consegue atenuar o sofrimento dos que são atingidos. Certos desígnios sempre carregarão um aspecto duro e incompreensível, mesmo aos que acreditam e tem fé em Deus. Novos seres costumam trazer consigo a esperança. A renovação de situações na forma de um sorriso, uma covinha, uma mecha de cabelo.&lt;br /&gt;Muitas vezes esses anjos não chegam a nascer, a contemplar o rosto de seus familiares. Mas isso não os impede de cumprirem uma tarefa. Que pode começar na expectativa da concepção, reafirmando o comovente milagre da vida. Ao crescerem no útero materno, sendo detectatos na ultra-sonografia, ou escutarmos as batidas surdas mas decididas de um coração se formando, sentimos o espírito abrandar. O nascimento, antes de tudo, é a reafirmação de um pacto maior. Um choro que traz serenidade, uma sucessão de extremos cuidados que transmitem alegria, além da força que extraímos para enfrentar o futuro. Seja relativo aos filhos, netos, sobrinhos, primos ou dos amigos.&lt;br /&gt;Contudo nem todos os seres humanos são iguais, nem todas as almas se mostram uma matéria-prima a ser modelada facilmente. Em casos assim a missão angelical pode ser árdua e não menos amorosa. Estes são os alvos principais desses seres efêmeros, de rápida passagem entre nós. Se não encontram a chance de crescerem, despertam a luz onde havia escuridão, apesar dos males físicos e emocionais iniciais. O seu bater de asas, rápido como o do beija-flor, deixa o rastro de uma brisa tênue qual um afago. Um bálsamo às lágrimas e a dor do primeiro momento, o carinho que desmancha o nó formado no peito. O terreno fértil que germina a semente luminosa aos que precisam.&lt;br /&gt;Maira foi um desses anjos cativantes. As letras de seu nome traziam afeto e poesia. Algumas delas combinadas formam “irmã” ou “rima”. Outra disposição e formamos “Maria”. O som doce dessas palavras induz ao lirismo, a crermos na lenda que explica sua perda prematura. O pacto não foi rompido, pelo contrário. Ele repercute agora, mesmo que o desencanto nos impeça de ouvi-lo. Mas abra o espírito, pois os versos que o confirmam pairam no ar, na sua aragem perfumada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Se Maira pousou um dia,&lt;br /&gt;Na leveza de tantas rimas,&lt;br /&gt;Assim beijou esta família,&lt;br /&gt;Que esperou bela menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se Maira levantou um dia,&lt;br /&gt;E comoveu tão linda irmã,&lt;br /&gt;Ainda brindou esta família,&lt;br /&gt;Que numa Maria tem a tia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Que a reprodução de anjo colocada hoje em sua lápide, pela mais delicada das mãos, seja o terno reconhecimento do que plantou e se colherá. Porque se nem tudo na vida são sonhos, muito menos serão somente pesadelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;P.S.&lt;/strong&gt; Maira partiu aos oito meses de gestação, na noite de 25 de março de 2008, na cidade de Cabo Frio, RJ, sendo enterrada no dia seguinte. Aos que lhe desejaram um sincero “&lt;em&gt;descanse em&lt;/em&gt; &lt;em&gt;paz&lt;/em&gt;”, ela responde, de onde estiver, com seus beijos de “&lt;em&gt;vivam em paz&lt;/em&gt;”. Se ainda não os escuta, não esmoreça, pois ela jamais desistirá de você. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-2878515091094757814?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/2878515091094757814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=2878515091094757814' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2878515091094757814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2878515091094757814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/os-beijos-de-maira_26.html' title='O Beijo de Maira'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-3162084642788280078</id><published>2008-03-23T11:42:00.000-07:00</published><updated>2008-03-30T18:20:07.444-07:00</updated><title type='text'>O Anel Que Tu Me Destes (1a. Parte)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Por favor, Cris, resuma... Tive uma péssima noite, dormi pouco.&lt;br /&gt;- Muito simples, Peter. Bem aqui na nossa frente, esse terreno baldio tomado de policiais, restos de lixo e objetos abandonados. Cinco quarteirões abaixo, à direita, depois do canal, fica a sofisticada Maison Léclair, a célebre joalheria. Hoje, por volta do meio-dia, o honorável senhor Pierre Bartholomée desceu a escadaria da frente acompanhado da esposa, do gerente e de um ajudante rumo ao táxi que o aguardava. Havia levado em confiança, para quitar amanhã, um anel de pérola. Enquanto tratavam das despedidas, Bartholomée deu um grito. Levou a mão ao casacão, dando por falta da carteira e do pequeno estojo da jóia. Apontou um sujeito que acabara de esbarrar-lhe e partia em desabalada carreira nessa direção. Ninguém conseguiu esboçar reação e o camarada desapareceu da vista.&lt;br /&gt;- Não acredito que me chamou aqui por isso...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há algum tempo, Peter Schmoll se ressentia do papel atípico que desempenhava no mundo das investigações, embora lhe fosse sempre proveitoso. Como detetive particular ocupava uma posição rara: era adorado pelos guardas e delegados porque jamais interferia nas investigações ou sonegava pistas. Compartilhava tudo que sabia e recebia de volta tratamento igual, em termos extra-oficiais. Além disso, quando estava envolvido profissionalmente, contratado por alguma parte interessada, resolvia os casos mais complicados, aliviando as autoridades de situações vexaminosas. Muitas vezes até abrindo mão dos louros da solução, para alegria daqueles que colhiam o reconhecimento sem o mínimo esforço. Contudo, do cheque polpudo ele não abria mão. Aliás, convém mencionar o fato que somente figurões ou ricaços o contratavam, pois seus serviços eram extremamente caros, baseado nos cem por cento de eficiência que ostentava.&lt;br /&gt;O problema é que recentemente os chapas da lei o solicitavam também em situações onde não tinha interesse direto, utilizando o poder da farda e do tráfico de influências para convencê-lo. Porque sua simples figuração tranquilizava os ânimos e permitia que a engrenagem funcionasse liberta de ingerências, na proporção direta da gravidade do problema. Sem desejar indispor-se nos altos escalões ou alterar um panorama favorável, construído durante anos de trabalho meticuloso, se fazia de completo desentendido e ajudava generosamente. Uma noite mal dormida, no entanto, o tirava do sério, fazendo-o reclamar acintosamente.&lt;br /&gt;- Ah, que troço chato, Cris. Qualquer novato cuida disso. Espalha os alcaguetes e quando o otário queimar a mercadoria se dá mal.&lt;br /&gt;- Peter... Estamos falando do advogado Bartholomée e da Maison Léclair. Não sabe quem é o proprietário da joalheria? Então... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O sonolento detetive concordou com a cabeça. Aqueles argumentos eram irrefutáveis, principalmente no auge da insônia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Outra coisa, Peter... Certamente alguma das partes envolvidas vai dispor de seus serviços, cedo ou tarde. Se o anel não for recuperado haverá um desagradável embate nos tribunais. Ninguém vai querer sair perdendo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Bartholomée levou a jóia em total confiança. Deveria saldar a dívida amanhã. Não houve assinatura de compra ou mesmo preenchimento de nota fiscal. Trata-se de um cliente ilustre e de posses, merecedor de regalias. Vão discutir juridicamente se a venda havia sido caracterizada. Ele podia inclusive desistir da compra no dia seguinte, acontece. Ou alegar que o roubo se deu na imediação da Maison, tanto que saiu do local acompanhado pelo gerente e um assistente, transferindo a responsabilidade. O estabelecimento, por sua vez, afirmará que já negociou assim antes, inclusive com o senhor Pierre, formalizando um consensual &lt;em&gt;modus operandi&lt;/em&gt;. A própria seguradora acompanhará com interesse, não vai querer arcar com o prejuízo. Vai por mim, amigo, o melhor para todos é recuperar o objeto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tanto barulho por um anel... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Ah, não é um anel qualquer... Trata-se de uma pérola &lt;em&gt;South Sea&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;- Falou grego. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Um homem tão instruído e requintado... Conhecedor das coisas boas da vida. Pensei não existir assunto que desconhecesse, Peter.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Gosto de arte, de vinhos e de estudar a História. Enfeites não me interessam – sentenciou, impaciente, consultando o relógio de pulso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A &lt;em&gt;South Sea&lt;/em&gt; é uma pérola natural rara, encontrada apenas, como o nome indica, nas profundezas dos mares do sul, a sudeste da Indonésia e das Filipinas. Não pode ser cultivada, o que aumenta muito o seu valor. Ela é produto de condições ambientais peculiares, que lhe conferem às vezes um tom dourado, e não se acham nesse matiz além de duas centenas por ano. Valorizando ainda mais o conjunto, o engaste é incrustrado de diamantes, gemas puríssimas cortadas com precisão, acondicionado num pequeno estojo preto e padronizado. Dois e meio centímetros de jóia valendo a bagatela de 500 mil dólares.&lt;br /&gt;- OK. Peguei o espírito da coisa... Casinho insosso.&lt;br /&gt;Peter observou a movimentação dos guardas no terreno baldio. Eles iam revirando tudo, ocupando uma área de cem metros quadrados como animais revirando lixo e entulho à procura de restos. Era nítido o insucesso deles, irritados por colocarem a mão na sujeira e no fedor sob o mormaço forte das duas da tarde.&lt;br /&gt;- Se a ocorrência foi lá, cinco quarteirões adiante, defronte a Maison Léclair, por que estamos parados aqui? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Porque agora talvez eu lhe torne o caso rápido, menos chato e à altura da sua genialidade, senhor Peter Schmoll. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peter sorriu sinceramente com a ironia. Essa linguagem entendia e o ajudava a despertar os sentidos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Quando surrupiou a carteira e a caixa do anel, disparando pela rua, o ladrão cruzou com uma dupla de patrulheiros na primeira esquina depois da Maison Léclair. Infelizmente faziam ronda a pé. Alertados pelos gritos histéricos de Batholomée e companhia, e pela pressa do sujeito, trataram de persegui-lo. O cara tinha asas nos pés mas os nossos tiras também. Quando estavam quase alcançando o vigarista, passando pelo terreno baldio, ele se livrou da mercadoria atirando para o lado tudo que carregava. Curiosamente, ao perceberem isso, ou até pelo cansaço, os policiais preferiram isolar a área e proteger os objetos, aguardando a chegada urgente de reforços. Viram de onde provinha a fonte da riqueza, se é que me entende... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Apontou na direção da imponente Maison Léclair, além do canal, uma construção de opulência detectável mesmo à distância.&lt;br /&gt;- Mas pelo jeito, Cris, ninguém encontrou nada ainda...&lt;br /&gt;- Apenas a carteira do senhor Bartholomée, intacta. Enviamos para a coleta de digitais. No final da tarde podem ter algo e informam de imediato &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Nenhum sinal da jóia, evidentemente... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não.&lt;br /&gt;Peter passou a mão na cabeleira e suspirou aliviado. O caso indicava possibilidades, ao menos não o mataria de tédio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Há quanto tempo essa turma está vasculhando? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Quarenta e cinco minutos. Acharam a carteira no princípio, com uns dez minutos de busca. Estava perto de um monte de latarias enferrujadas, na dianteira do terreno. Concentraram os esforços ao redor delas, sem resultado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Estranho... O ladrão no seu desespero, ofegante, não conseguiu arremessar muito longe. O anel deveria ser encontrado perto da carteira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sei lá, Peter. Isso é sempre aleatório. Um terreno todo acidentado, cheio de ondulações e desníveis, coalhado de quinquilharias... Uma caixa de jóia pequena e leve pode ter quicado, ido ao acaso noutra direção, entrado numa lata ou caixa... Andando não saiu, certo? Questão de paciência... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Além da nossa dupla de corredores, alguém mais assistiu a correria e os objetos serem jogados no terreno baldio? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sim, na birosca da outra calçada. Um padre e um aposentado molhavam a garganta ali e cuidavam a rua. Relataram a mesma história dos patrulheiros. Ao passar pelo terreno, o tratante se livrou do que segurava. De onde estavam não podem afirmar o que era, mas que atirou suas coisas, não há dúvida.&lt;br /&gt;- Valha-me... Que contraste... De um lado do canal, a Maison Léclair, gente fina e patrulheiros zelosos da propriedade individual. Do outro, a Birosca do Lucas, terreno baldio imundo e dois mamados vigiando a área... Mundos próximos e distintos. Parece a época do Muro de Berlim...&lt;br /&gt;- Peter, como você é afetado, amigo – gargalhou Cris, dando-lhe um tapa amigável nos ombros. – Gostaria de falar com as testemunhas? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Se quer minha ajuda, faça-me um favor: mantenha o padreco e o velho fora de vista. O pouco que tinham a dizer não é novidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tudo bem, calma... Por onde vai começar? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Por você, Cris... Alguns pontos me intrigam... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Quais? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O que aconteceu com a famosa segurança da Maison Leclair? Não havia gente deles na calçada, impedindo a usual abordagem de oportunistas ou pedintes? Um estabelecimento desse nível costuma ter inúmeros... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sem mistério, Peter. Esqueceu que hoje é domingo? Abriram com o mínimo de funcionários necessário. Apenas um segurança interno, além do gerente e seu auxiliar. Não há quase movimento nessas imediações nos finais de semana. Aqueles patrulheiros, na verdade, são um luxo despropositado. Entretanto além da Maison existem outras lojas de primeira linha, de grife, no lado nobre do canal. A presença da polícia circulando confere um requinte adicional. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peter voltou a agitar a cabeleira desgrenhada, afugentando o calor.&lt;br /&gt;- Abriram unicamente para atender Pierre Bartholomée? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sim, uma venda de urgência, sondei ligeiramente. A transferência bancária seria realizada amanhã, na agência. Parece que o veterano advogado não confia em transações pela Internet, nem carrega talão de cheques ou cartões. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Uma venda de emergência? Só faltava essa... Tanta deferência aos notáveis... E por que o nosso abonado comprador precisou de um táxi? Não possui uma frota de carros e uma tropa de motoristas para servi-lo? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Aí não sei dizer, Peter. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Bom, respondendo sua pergunta anterior, vou dar a partida além do canal. No lado nobre, como diz. Xeretar a gente fina. Me apresentar como contratado de alguém interessado na solução de tudo. Vão desconfiar uns dos outros e ficar à mercê... Ah, um conselho: dá uma pausa ao pessoal se liquidando no terreno. Senão eles derretem e acabam sumindo também...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;(CONTINUA)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-3162084642788280078?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/3162084642788280078/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=3162084642788280078' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3162084642788280078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/3162084642788280078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/o-anel-que-tu-me-destes-1a-parte.html' title='O Anel Que Tu Me Destes (1a. Parte)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-8366481759066150123</id><published>2008-03-20T14:15:00.000-07:00</published><updated>2008-03-26T06:14:44.390-07:00</updated><title type='text'>Batismo de Fogo (Conto)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao arremessar um copo de plástico para o alto, Sparta deflagrou uma sequência de eventos tão desinteressantes que sequer deveriam ser citados. Muito diferente do que ocorrera mais cedo. Ainda houve quem perdesse tempo especulando sobre seu gesto absurdo, ridículo e repetitivo. Na mesa ao lado, um jovem não perdeu a chance de procurar motivos que explicassem aquela insistência. Noutra, os olhares de censura desfiguravam as feições rudes do rosto, obtendo inúmeros seguidores, denotando o profundo desagrado pela infantilidade. À esquerda, um senhor que rira pela última vez quando entrara na puberdade, denunciava com sua sisudez que os bons tempos de outrora terminaram. Porém, o que mais irritou alguns no recinto foram os pedidos de desculpa imediatos, aquela sede de perdão implícita, logo após as poucas gotas d’água batizarem uma minoria desafortunada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-- Perdoem, estava morna. Não foi minha intenção.&lt;br /&gt;Sparta nunca fora original ou brilhante. Mas algo mudara nele, óbvio. No suadouro do refeitório, agravado pela algazarra, aquela chuvinha inofensiva fora um sopro ineficaz mas umedecera as expectativas. O copinho já viera com a água quente, isentando-o em parte. A rigor, ele não tinha obrigação de se retratar, embora o fizesse de maneira franca. O tal jovem curioso sentiu-se na obrigação de responder, pois o criticara para as duas moças que lhe faziam companhia.&lt;br /&gt;-- Se estivesse gelada não falaria nada?&lt;br /&gt;Muitos se voltaram divertidos pela pergunta do franzino intelectual e duvidando de uma resposta que confirmasse o novo temperamento de Sparta.&lt;br /&gt;-- Se estivesse gelada, Príamo, teriam de me agradecer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O recinto era bastante quente sim. Não existiam janelões ou buracos de ventilação adequados. Na parede da direita ficava a cozinha, responsável pelo infernal ambiente de sauna. No lado oposto, demarcado por duas portas giratórias, o acesso rápido ao exterior, um paraíso de frescor ambicionado urgentemente. No entanto, as refeições permaneciam atrasadas e sair dali seria perda de tempo, pois teriam de enfrentar novamente uma longa fila.&lt;br /&gt;Antes de responder para Sparta, Príamo teve a atenção desviada por um irriquieto casal de namorados. As mãos de um retorciam as do outro, numa confusão de dedos e unhas. Cutucou o colega sem abrir a boca, indicando com os olhos arregalados o desconforto dos jovens pombinhos. Os dois se entreolharam como quem afirma &lt;em&gt;eu não te disse, camarada, que namoro sério dá&lt;/em&gt; &lt;em&gt;nisso&lt;/em&gt;? A mocinha reclamava sem parar deixando o rapaz visivelmente zonzo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-- Eu disse para não virmos, querido. Esse programa era roubada...&lt;br /&gt;-- Só tinha grana para isso, Anjo. Pelos folhetos parecia não ser ruim. Ônibus confortável, belo passeio, bom almoço, gente divertida...&lt;br /&gt;-- Gente divertida? Com um bobão que esparrama água em cima dos outros? Ele não se cansou disso ainda? Fez essa mesma babaquice no ônibus mais de uma vez. E cadê homem para dar um tranco nesse idiota?&lt;br /&gt;-- Ah, espera aí, garota!&lt;br /&gt;O tal senhor mal humorado se levantou e caminhou na direção dela.&lt;br /&gt;-- Quando quis tomar uma atitude já na primeira vez, um monte de passageiros me criticou. Disseram que o carinha era de um grupo de estudantes e precisávamos compreender como são nessa idade. Você própria me encarou de um jeito esquisito. Então tinha homem lá dentro, bolas. Depois fica fácil reclamar!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como seu namorado nem esboçou replicar ao parrudo, ela se calou e vestiu a carapuça. Afinal, bancara mesmo a magnânima e paciente com o rapaz.&lt;br /&gt;-- Nunca passei por uma situação tão constrangedora, Fred... Olha quanta gente! Vai levar horas! &lt;em&gt;Sem dinheiro para algo melhor&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;Príamo assistiu aquilo preocupado. Tinha duas moças na sua mesa, que convidara à excursão com segundas intenções. Até agora estavam caladas, provavelmente chocadas com o programa de índio que se meteram. Se resolvessem seguir os passos da reclamona teria perturbação em dose dupla. Talvez necessitasse se aliar com Sparta, diluindo as possibilidades de um ataque feminino em larga escala.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-- Amigo, não tem queda por louras? Quer sentar conosco? Tive de trazer ambas... A prima estava de visita, se não carregasse junto a Meg não viria.&lt;br /&gt;-- Não gosto de louras. Prefiro ruivas.&lt;br /&gt;-- Puxa, Sparta! Depois de tudo ainda fica escolhendo garotas? Não ataca a loura porque prefere ruivas? Você é complicado, hein?&lt;br /&gt;-- Não acho graça nas louras.&lt;br /&gt;-- E morenas? Tipo a Meg? Vá lá, abro mão e...&lt;br /&gt;-- Somente ruivas...&lt;br /&gt;Um senhor com aspecto pacato e conciliador levantou-se abrindo os braços, solicitando atenção. O tédio, que se insinuava por todos os poros pegando carona no calor sufocante, ajudou na sua pretensão.&lt;br /&gt;-- Sei que todos tivemos um contratempo bem desagradável. Nessas horas, no lugar de queixas e recriminações, precisamos demonstrar boa vontade, amigos. O ambiente está mais pesado que o necessário. Qualquer um sente isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A loura desprezada por Sparta enfim abriu a boca.&lt;br /&gt;-- Não deve ter nada melhor a fazer, vovô! Contratempo?&lt;br /&gt;Outros começaram a protestar causando uma repentina balbúrdia. Na confusão, Sparta tratou de atirar todos os copinhos disponíveis, sendo imitado por Príamo na sua frustração de algo para fazer. O motorista do ônibus, que poderia anunciar um ponto final naquele confinamento forçado, não aparecera ainda com as tão ansiadas boas notícias. Devia estar muito ocupado nos reparos. Na sua presença, certamente, os rapazes o poupariam da brincadeira estúpida que motivara sua retenção ali por tanto tempo, suando numa sauna involuntária, à espera das refeições atrasadas e do conserto do veículo.&lt;br /&gt;Entretanto, a babel recrudesceu e as discussões acaloraram. A nota excludente era Meg, que permanecia absorta a tudo, fisionomia melancólica e dispersa no infinito, consolada inutilmente pela prima loura. Os demais apontavam irados os dedos entre si, trocavam ofensas e cogitavam cobrir Sparta de tapas depois de resolverem suas pendências mútuas. O senhor que pedira há pouco serenidade recolhera os braços e nem ousava mais abrir a boca. O jovem casal de namorados não discutia, porém sentara-se em mesas separadas, um de costas ao outro. O homem parrudo radicalizava, preparado para erguer uma cadeira contra quem estivesse mais próximo, com toda a força que a inanição lhe permitisse.&lt;br /&gt;-- Em nome do bom Deus, o que se passa aqui?&lt;br /&gt;As portas de entrada se abriram repentinamente, dando passagem a um elegante &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt;, acompanhado por um séquito de doze esguios garçons, todos impecáveis em seus trajes e maneiras, profissionais até a raiz do cabelo. A visão daquele grupo e a pergunta solene, cheia de autoridade, aquietou a maioria.&lt;br /&gt;O parrudo baixou a cadeira mas não se fez de rogado:&lt;br /&gt;-- Nos diga você o que se passa nessa espelunca! Estamos retidos há séculos nessa fornalha, cansados e famintos, e nada acontece. Nem comida, nem motorista, nada mesmo! Serviço de segunda, hein? E não aceita protestos?&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt; respirou fundo, puxou toda sua experiência e se aproximou dos clientes, ficando no centro de uma roda de mal humorados e reclamantes.&lt;br /&gt;-- Estão todos cobertos de razão. Entretanto entendam que existem outros para atendermos. O movimento, certas vezes, ultrapassa o programado. Por outro lado, não precisam de comida. Quanto ao motorista, no fundo sabem porque não veio. Ficou no hospital, sob cuidados. Deverá ter alta em sete dias.&lt;br /&gt;Seria normal uma reclamação enfática ao ouvirem um prazo assim tão longo. Mas o &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt; transmitia calma e dominara os ânimos sutilmente.&lt;br /&gt;-- Como lhes disse, senhoras e senhores, não precisam mais se preocupar com comida. Ou bebiba... Não é Sparta? Aliás, acho que já bastou por hoje, concorda? E devem esquecer de vez o motorista. Ele está salvo, um milagre. Quando nosso rapazote estabanado atirou o terceiro copo no interior do ônibus, no instante exato de uma curva, quem imaginaria que cairia na cabeça do chofer? Ele se assustou, tentou freiar desesperadamente, virar ao máximo o volante... Contudo estavam na borda de uma ribanceira íngrime e a aceleração tornava impossível evitar a queda. O Seu Marcos foi cuspido do veículo e amortecido por um ninho de arbustos. Escapou com arranhões, escoriações e um pequeno traumatismo no tórax. Todos vocês, lamentavelmente, pararam no fundo do precipício. A sorte não lhes sorriu.&lt;br /&gt;Numa fração de segundo, as imagens do acidente retornaram céleres às memórias do grupo. A morte havia sido rápida, indolor, muitos estavam cochilando e não perceberam a trágica sequência dos fatos. Uma letargia parecia dominá-los agora, qualquer ânimo de protestar desaparecera subitamente. As palavras do &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt; produziram um eco simbólico em seus tormentos, resgatando do limbo instintos essenciais, acima de valores tornados anacrônicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-- O que acontece conosco agora? – alguém indagou, representando um pensamento comum, uma curiosidade natural.&lt;br /&gt;-- Agora vou cumprir minha função. Me sentar naquela mesinha do canto e aguardar sua decisão. Farão uma fila e, com honestidade de propósitos, revelarão aquilo que consideram merecer. De um lado, temos as vicissitudes e desconforto da sauna, do suadouro como andaram batizando. A cozinha do inferno. No lado oposto, a brisa, o antídoto, a temperatura amena e paradisíaca. Não interpretem ao pé da letra ambos, mas será assim que os perceberão. Aqui é o lugar que se determina onde viverão eternamente. Não os julgarei. Seres humanos costumam bancar os juízes mais severos de si próprios. Meu Senhor já os perdoou. Resta saber se estão aprontos a se outorgarem o mesmo direito. Acreditem que, longe do seu senso de oportunismo terreno, teriam maior chance de clemência se nós deliberássemos seu destino... Vamos começar com você, Sparta?&lt;br /&gt;Tremendo, o jovem se aproximou em lágrimas, cabeça baixa e espírito destroçado. A consciência o atormentava pela perda de tantas vidas numa brincadeira idiota. Percebia os olhares acusadores em volta, penetrando cada poro da sua pele qual uma agulha. Tudo muito recente e não menos doloroso. As marcas físicas e emocionais permaneciam. Os gritos derradeiros o ensurdeciam na mesma proporção dos sonhos abortados. No íntimo, seu impulso imediato solicitava-lhe afastamento e solidão, cobrando resoluto uma espiação condizente. Somente Meg, impotente no seu alheamento, poupava-o dessa terrível convicção. O &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt; sorria, procurando dar-lhe o apoio e a confiança do qual não dispunha. Assim como seus auxiliares, mesclados ao restante do grupo, na tentativa de transmitir aos demais um mínimo de paz nesse momento crucial.&lt;br /&gt;Sparta seria o fiel da balança, o fator decisivo de perdão irrestrito, embora o &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt; soubesse que a ordem correta sempre se impusesse ao final. E que céu e inferno se constituiám em estados da alma, induzidos pela leveza da consciência, inexistindo materialmente. Os rios corriam plácidos ao mar e, superados trechos turbulentos, jamais deixariam de fazê-lo. Aquele moço carregava não os pecados do mundo, porém seu remorso pessoal. Similar a Meg, que demonstrava não haver absorvido ainda os novos acontecimentos. Mesmo Cristo tivera seus momentos de angústia e dúvida na longa travessia noturna do Monte das Oliveiras até à ressurreição. Aquelas pessoas amedrontadas tiveram suas existências ceifadas e sua excursão interrompida no meio do caminho, mergulhando em densas trevas individuais que no presente manchavam sua visão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todavia elas iriam descobrir na sua luz interior que a maior das jornadas apenas começara.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;FELIZ PÁSCOA PARA TODOS!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-8366481759066150123?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/8366481759066150123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=8366481759066150123' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/8366481759066150123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/8366481759066150123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/batismo-de-fogo.html' title='Batismo de Fogo (Conto)'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8796132157770550983.post-600837934151277301</id><published>2008-03-16T12:58:00.000-07:00</published><updated>2008-03-19T21:18:59.319-07:00</updated><title type='text'>Vidas Amargas, Medos Difusos</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Onde estará o sol que nós aquecia?&lt;br /&gt;Guardado, esperando o momento,&lt;br /&gt;Brilhando longínqüo qual incenso,&lt;br /&gt;Abençoando este futuro de alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As certezas por nós são construídas,&lt;br /&gt;Na atração irresistível dos desejos,&lt;br /&gt;Na força carinhosa de doces beijos,&lt;br /&gt;No abraço protetor que a faz querida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro sempre tua face na neblina,&lt;br /&gt;Nas brumas do tempo, se escondida,&lt;br /&gt;Se na pousada vejo um sorriso de menina,&lt;br /&gt;Na morada descubro o encanto da mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas noites a dois, tantas histórias,&lt;br /&gt;Tateando juntos longas madrugadas,&lt;br /&gt;Ao amanhecer, o renascer em glória,&lt;br /&gt;De corações servis destas cavalgadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros desafios, antigos segredos,&lt;br /&gt;No toque mútuo o valor da alforria,&lt;br /&gt;O prazer de propor novos enigmas,&lt;br /&gt;O pacto de recriá-los todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o caminho é longo, o que importa,&lt;br /&gt;Ao seu final aguarda a maior riqueza,&lt;br /&gt;Na travessia impetuosa da Mudança,&lt;br /&gt;O encontro natural da nossa certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lugar de bradar aos ventos,&lt;br /&gt;Quero sussurrar ao teu ouvido,&lt;br /&gt;Palavras de doçura e de alento,&lt;br /&gt;Frases que invadem ao infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não será a cavalo, mas vindo num carro,&lt;br /&gt;Não tenho armadura, somente as vestes,&lt;br /&gt;Não há doença, apenas nossas crenças,&lt;br /&gt;Não existe separação e sim a redenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faces cruas exibindo vidas amargas,&lt;br /&gt;Semblantes vívidos e medos difusos,&lt;br /&gt;Quando a minha mão se fechar na tua,&lt;br /&gt;Acenderemos até o lado escuro da Lua.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-600837934151277301?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/600837934151277301/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=600837934151277301' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/600837934151277301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/600837934151277301'/><link 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Basta que realmente sintamos algo verdadeiro, pleno de luz própria, projetando a luminosidade que emerge da entrega.&lt;br /&gt;Os telescópios apontam para o alto no balanço do prazer. Se ao redor tudo gira ou desaparece, a órbitas dos nossos olhos reciclam penumbra, objetos e distâncias. Começamos a flutuar sem sair do lugar, liberar tudo que necessita de repouso na excitação, enquanto os ruídos se abafam em si próprios, pois tornaram-se brados no vácuo de nosso espaço interior.&lt;br /&gt;Cometas, asteróides, sóis, um estimulante desfile psicodélico abre passagem na sensação gostosa de durante e na prostração deliciosa de depois. O riso faz contato, aproxima dois mundos em busca da mesma trajetória. Os enigmas não precisam mais ser explicados. Foram saciados diretamente na fonte apenas para introduzir novos desafios, atrair numa jornada infinita pelas cores do arco-íris.&lt;br /&gt;As centelhas pulam em volta, podem ser tocadas. É divertido brincar cercado de tantos tons, na intensidade de flores flutuantes, de espasmos cromáticos. As cabeças ávidas se liberam sem hesitação, seja no desejo terreno ou no prazer cósmico, através das carícias ansiadas e do toque reconhecido.&lt;br /&gt;A doce violência de agarrar e ser agarrado, a louca persitência de invadir e ser invadido, os nomes murmurados entre si, mapeiam uma viagem que sequer se encerra ao final. Não importa tanto como se sabe, mas aquilo que é praticado.&lt;br /&gt;Porque entre tantos firmamentos que vibram sobre nós, o contato com as estrelas volta enfim a ser restabelecido. E em troca elas revelam segredos surdos que, ao invés de apontarem uma solução única, desvirginam possibilidades que se regeneram em novas situações e explorações conjuntas, no calor e ardor mútuos, numa linguagem descrita simplesmente como &lt;em&gt;mágica&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Agora sim direis ouvir estrelas...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8796132157770550983-2216212574775077076?l=robanso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://robanso.blogspot.com/feeds/2216212574775077076/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8796132157770550983&amp;postID=2216212574775077076' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2216212574775077076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8796132157770550983/posts/default/2216212574775077076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://robanso.blogspot.com/2008/03/linguagem-das-estrelas.html' title='A Linguagem das Estrelas'/><author><name>Roberto Souza</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07575104615465033610</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='00064506851565625286'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry></feed>